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O nosso "eu" de cada dia

por Claudia Zogheib

28/08/2020 - 05h00

Diante do momento que vivenciamos, continuamos nos adaptando aos cuidados e medos de sermos contaminados pelo coronavírus. Estamos diante de mudanças que acionam em nós sentimentos contraditórios, estes que nos fazem estremecer ao contato, que convivemos desde que nascemos, e nos pede para abrirmos uma conversa individual, necessária e urgente, num percurso de convivência íntima: nossa parte mente, corpo e espírito necessita e grita por cuidados ... pede por integração.

Quando entramos em contato com as dores e desejos, nossos e dos outros, habitamos um local muitas vezes desconhecido por nós. Ocupar esse lugar, nos permite uma construção na capacidade de estar só, mesmo que em companhia do outro. Assim, passamos a trilhar a difícil tarefa de convivência com nossos próprios limites, podendo em alguns momentos, revisitar as diferentes faces do eu e do outro, que nos permite atravessar momentos de angústia. O caminho do amadurecimento emocional que nos coloca diante do vir a Ser, nos faz habitar lugares fundamentalmente necessários para a construção de quem somos, ou de quem gostaríamos de ser. Estamos num momento difícil, enfrentando uma quota de sofrimento e violência continua e desumana, de extremidade para muitos de nós.

Creio que diante deste momento podemos pensar: o que resiste como força de esperança e cuidado, para além das dificuldades do momento, pode ser chamado de força que sobrevive para além das condições de cada um de nós: o nosso lado "materno" (aquele que vive dentro de homens e mulheres), solidário, cheio de anseios sociais, que resiste dentro de nós, mesmo quando o pouco que fazemos ou recebemos, se torna muito, enquanto em momentos adversos, podemos revisitar nossas memórias de convivência íntima em tempos mais claros, diferente destes que estamos vivenciando.

Em todos os sentidos, a convivência individual, poderá se manifestar em algum momento socialmente, se pudermos atravessar as dores e inconstâncias do momento, com o objetivo de acionarmos a parte mais humana dentro nós, esta que integra mente, corpo e espírito, esta que resiste ao mau tempo. Há sempre uma parte de nós que vive em isolamento sem que saibamos disto, e a convivência individual, mesmo estando em grupo, padece por não existir uma integração da nossa parte conhecida, com nossa parte desconhecida.

Esta é a maravilha de entrarmos em contato com nós mesmos, de termos a possibilidade de integrar todos as nossas partes individuais, em convivência e relação com o mundo que vivemos. E para quem cuida da mente, diante do desamparo, nos cabe amparar, diante da adversidade, nos cabe integrar, ajustar e acordar o desconhecido que vive dentro de cada um que nos procura: parabéns a todos os psicólogos.

Em tempo, este texto foi escrito ao som da música "Ialniz", de Stefan Andre.

 A autora é psicóloga clínica , psicanalista, formada pela USC especialista pela USP-Departamento de Psicologia

 

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