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Nebulosa volta às aulas

por Adilson Roberto Gonçalves

28/08/2020 - 05h00

Procuram-se parâmetros que sejam claros para justificar e tornar segura a volta às aulas presenciais, mas o que se vê, ainda, é um quadro nebuloso. À pergunta lançada, muitas considerações são feitas, mas pouco se fala sobre a rede de contaminação cruzada que pode resultar de uma única criança que tenha o coronavírus. Estudos realizados por um grupo espanhol de pesquisadores mostram que em uma sala com 20 alunos, 800 pessoas podem se infectar em dois dias. Crianças podem ser menos susceptíveis, mas não deixam de ser transmissoras, é a conclusão no momento.

Um professor falando alto libera 1.000 gotículas de saliva por minuto. Se estiver com o coronavírus, vê-se que é fundamental que use o protetor facial e a máscara devidamente, cobrindo nariz, boca e queixo.

Foi avaliado também que o índice de comorbidades ou fazer parte de grupos de risco é de 40% entre esses profissionais da educação. Mesmo entre os jovens estudantes universitários, há que se considerar que cerca de 25% dos que têm acima de 20 anos já apresentam algum fator de risco, como diabetes e obesidade. Assim, as propostas que preveem o retorno de um terço dos alunos de cada vez podem estar automaticamente excluindo - tanto alunos como professores - os que já possuem impedimentos para a volta. Podemos tentar calcular o risco mínimo aceitável para a contaminação na volta às aulas, mas temos de decidir se ele será real ou sentimental, de percepção. Por exemplo, o risco de sofrer um acidente viajando de automóvel é próximo a 270 vezes o do mesmo risco de acidente viajando de avião. Porém, há uma falsa impressão da tragédia de acidentes aéreos porque todos são noticiados mundialmente, diferentemente dos acidentes rodoviários.

Aglomerações causam maior transmissão, mas, com o plano de reabertura das atividades, esse fator ainda não foi quantificado. As pessoas que estão indo hoje às compras são os mesmos que já não faziam isolamento social nas fases vermelha e laranja? Se assim for, alunos e professores estariam 'protegidos' em suas bolhas e quando delas saírem poderão ser um novo vetor de propagação da contaminação por não estarem imunes.

A defesa da vida deveria ser o objetivo principal ao se lidar com uma pandemia como esta. Critérios podem e devem ser adotados para realização segura de atividades, mas não é o que se descortina no momento, faltando diminuir a nebulosidade que ainda paira sobre os índices.

O autor é pesquisador na Unesp 
adilson.gonç[email protected]

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