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O Homem a passeio

por Luís Paulo Domingues

09/09/2020 - 05h00

Por que será que passear não é uma profissão? Por que o esforço de se deslocar a pé por grandes extensões da cidade não merece um salário? O homem que acorda cedo, de madrugada, no crepúsculo, e sai em busca das praças e ruas ainda vazias, que vê o primeiro gari varrendo as folhas enquanto solta pela boca aquele vapor frio quase congelado, que passa o dia flanando pelos bairros a observar tudo existindo... pois ele também tem que ser remunerado.

Sugiro uma tabela de preços ou cachês para passeantes, cicerones de si mesmo e voyeurs da urbanidade, que se dediquem a despir a cidade e a observá-la quase que exatamente como naquele processo deleuzeano da percepção primeira, antes dos julgamentos e das ideias aprendidas, mas fazendo por vezes uma parábola para atingir o império das opiniões no intelecto e proferir um veredicto sobre a sociedade - mas sem nenhuma intenção de colocar em prática algo modificador, e apenas para julgar, mesmo, obtendo um retrato da cidade ou de parte dela. Reitero que tudo isso tem um preço e deve ser pago pelo Estado, e o acesso à carreira será mediante concurso público.

Pode-se dividir os passeantes em classes qualitativas, porém a palavra "produção" nesta profissão não teria sentido, até pela própria natureza dela. O melhor passeante não seria aquele que passeia mais, mas aquele que tem um passeio mais qualificado. Por exemplo, se o passeante vai às vezes até a zona rural e anda pelas estradas de terra através de pastos e bosques verdejantes, ele é melhor do que aquele que só passeia no centro da cidade. Se o passeante se aventura pelos meandros da zona ferroviária, onde numerosas composições de trens abandonados e desgastados pelo tempo dão espaço para o mato crescer dentro dos vagões, ele ganha mais do que o, diríamos, novato que se recusa a passar por lá.

Dentro de condomínio, nem pensar! Não se remunera um passeante de condomínio jamais, pois não há pureza histórica, filosófica, psicológica e cultural em um passeio de condomínio. Estão banidos da profissão.

Portanto, o passeio tem que se dar em locais realmente públicos, em meio aos mais democráticos modelos de urbanidade e nas diferentes regiões do município. Para que se mantenha sempre a dignidade na nova profissão, é proibida a obtenção de lucro paralelo aos ofícios de passeante, cicerone de si mesmo e voyeur de urbanidade. Dessa forma, o profissional está impedido de escrever livros, compor músicas e produzir artigos científicos que tenham base, mesmo que vaga, na sua atividade profissional de passeante, bem como é vedado trocar informações sobre a profissão com a Academia.

A partir desses posicionamentos, alguns poderiam perguntar "mas qual o valor de uma profissão como esta?" Acredito que não podemos mais mensurar o valor das profissões dessa forma: "o que os outros vão ganhar com isso?," pois seria o mesmo que perguntar qual o valor do profissional que ganha dinheiro para criar necessidades desnecessárias, caso do publicitário; ou o valor do profissional que ganha muito bem para ficar "guardando" o dinheiro das pessoas - e ainda cobra uma mensalidade, taxa de recadastro automático e várias outras-, caso do banqueiro.

Já antecedendo questionamentos que podem ser feitos acerca de um potencial cunho artístico possível de ser assumido entre os profissionais da área, não será permitida qualquer associação dessa natureza, mesmo que inconsciente. Afinal, a pessoa que dança ganha para que outras pessoas assistam às suas performances, assim como a pessoa que toca um instrumento o faz para a plateia. Mas o passeante profissional, ao contrário do artista, deve sempre manter o anonimato e a discrição quando estiver em ação, pois disso depende o adequado curso dos acontecimentos e o sucesso na carreira. De modo algum pode ser permitido que os populares assistam ao passeio ou o observem. O profissional não pode ter público, pois deve desfrutar da posição de observador pleno do ambiente.

O utilitarismo nas profissões está com os dias contados a partir de 2020, e as profissões de passeante, cicerone de si mesmo e voyeur da urbanidade terão local de destaque entre as outras áreas emergentes, com é a venda de ingressos para lives, outro caso de sucesso nas novas profissões "não úteis".

O autor é jornalista.

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