Bauru e grande região

 
Articulistas

Flanelando

por Roberto Magalhães

11/09/2020 - 05h00

Todos os domingos pela manhã, o jornal me espera no jardim. Um encontro combinado que se repete há anos. Ao me curvar para pegá-lo, nem preciso olhar a garagem da casa ao lado para saber o que nela está acontecendo. Como sempre, lá está ele, o meu vizinho, acariciando com água, pano macio e sabão o seu velho carro. Já com o jornal na mão, eu o cumprimento afetivamente. Ele me responde com um aceno e um sorriso que me fazem bem. Depois, volto para dentro de casa, mas nunca para ler imediatamente o jornal. Tenho um segredo: escondo-me atrás da cortina para ver o namoro do meu vizinho com o carro que ele tanto ama.

O jornal que espere. Por mais explosivas que sejam e me gritem as manchetes, não lhes dou pronta atenção. Sei que vou ter que engolir os escândalos políticos de sempre, as balas perdidas que fazem mortes nas periferias, as crescentes estatísticas pandêmicas, os feminicídios, teimosias, enfim, de um mundo que se repete, diariamente, em corrupção e violência. Puxo, com cuidado furtivo, um pouco mais a saia da cortina para espiar melhor o meu vizinho acariciando o carro sob o sol. Notícia assim jamais eu encontraria nos jornais, nenhum interesse existe por coisas pequenas e banais. Meu vizinho e seu carro jamais desconfiarão dos meus olhos bisbilhoteiros e da inveja que deles sinto atrás da cortina. É um poema, que fala de um singular momento de felicidade entre um homem e seu carro. Os versos nascem dos movimentos leves de massagem, ouso dizer quase sensuais, que fazem do carro acariciado quase amada mulher. Fico pensando que o mundo seria outro e os homens outros seriam, se todos flanelassem seus carros em manhãs ensolaradas. Por estarem felizes, eles levariam essa energia boa para todos que com eles convivessem. Depois, tomado por um sentimento de autocensura, resolvo me contestar. Besteira, a vida não permite coisa assim. A pobreza me lembra que muitos não têm garagem; outros tampouco, casa; alguns, nem bicicleta... Nada, enfim, que com amor se possa ensaboar. Não me rendo, insisto e penso que pode ser até mesmo um mirrado jardim de florezinhas corriqueiras, certamente, merecedoras do mesmo amor. Continuo pensando e são muitas as possibilidades de pequenos encontros afetivos que vão desfilando pelo meu pensamento, todas querendo se mostrar. Não se namora apenas carro, pode-se namorar violão, também pandeiro, crochê, horta, pinceis e telas, bolos, bordados, qualquer coisa, enfim, que se faça em paz e com amor. O problema é que os homens gostam de sonhar alto, querem prestígio, poder, dinheiro... E daí? Nada contra. Que cada um seja livre para sonhar como quiser. Mas que seja possível encontrar, entre os espaços concorridos da agenda diária, um pequeno vazio possível e nele anotar um momento de namoro com qualquer coisa miúda.

Acordo, então, desse longo devanear e percebo que o meu vizinho já não está mais ali. Não percebi o momento em que ele terminou o seu trabalho amoroso. Só o carro ali permanece, brilhando sob o sol. Perdoem-me, ele parece feliz.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

 

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