Bauru e grande região

 
Articulistas

Fratelli Tutti: nova encíclica do papa Francisco

por Valmor Bolan

14/10/2020 - 05h00

A nova Encíclica, a 3ª, do papa Francisco trata da fraternidade, um tema caro ao papa argentino, que desde o primeiro instante, quando pediu para que o povo rezasse por ele, curvando-se na sacada da Basílica de São Pedro, em 13 de março de 2013, disse: "Rezemos sempre por nós, uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade". Esse foi o desejo de paz manifestado pelo Sumo Pontífice, e que vem buscando em seu pontificado, apesar de muitas críticas dos setores mais tradicionalistas da Igreja. O papa quer ouvir todos, todas as religiões, todos os líderes do mundo, porque entende que só assim é possível uma partilha efetiva de valores, que permita um mundo com menos violência e mais paz.

O seu ecumenismo não é só de fachada, mas a partir do qual é possível que pessoas que pensam diferentes e com credos diferentes possam se unir em torno de ações concretas que beneficiem as pessoas, principalmente as mais pobres. É isso que dá ao seu pontificado um rosto mais humano, com uma visão mais realista e com resultados que levem à fraternidade humana com que tanto sonha. A encíclica foi assinada no túmulo de São Francisco de Assis, em 3 de outubro deste ano, na cidade de Assis, na Itália. Foi um gesto simbólico para recordar o carisma do seu pontificado, inspirado no Poverello de Assis.

Como explica Antonio Spadaro, ao comentar a encíclica do papa Francisco, "a Fratelli Tutti inicia com a evocação de uma fraternidade aberta, que permite que cada pessoa seja reconhecida, valorizada e amada para além da proximidade física, para além do lugar do universo onde nasceu ou onde vive. A fidelidade ao Senhor é sempre proporcional ao amor pelos irmãos. E essa proporção é um critério fundamental dessa encíclica: não se pode dizer que se ama a Deus se não se ama o irmão. 'De fato, quem não ama o próprio irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê' (1Jo 4,20)." E acrescenta: "Desde as primeiras frases, destaca-se como Francisco de Assis estendeu a fraternidade não apenas aos seres humanos - e em particular aos abandonados, aos doentes, aos descartados, aos últimos, indo além das distâncias de origem, nacionalidade, cor ou religião - mas também ao sol, ao mar e ao vento (cf. nn. 1-3).

O olhar, portanto, é global, universal. E assim é o fôlego das páginas do Papa Francisco". Também ressalta: "Essa encíclica não podia permanecer alheia à pandemia da Covid-19, que eclodiu inesperadamente. Para além das várias respostas dadas pelos diversos países - escreve o papa -, veio à tona a incapacidade de agir em conjunto, embora possamos nos orgulhar de estar hiperconectados. Escreve Francisco: 'Oxalá já não existam 'os outros', mas apenas um 'nós'". A mensagem de fraternidade proposta pelo papa Francisco não é revolucionária, como quiseram os que tomaram a palavra fraternidade como lema da Revolução Francesa, mas o papa pede uma redescoberta do valor originário dessa expressão, que permita que possamos viver melhor a solidariedade, num mundo cada vez mais individualista.

É uma mensagem para o nosso tempo, necessitado de reencontrar o sentido da vida, a partir de princípios e valores que nos tornam verdadeiramente humanos.

O autor é doutor em Sociologia, professor da Unisa, ex-reitor e ex-dirigente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras.

Ler matéria completa