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Memórias sentimentais da travessia

por Alexandre Benegas

17/10/2020 - 05h00

O final da série. O término do livro. Construção da personagem, desenvolvimento da estória - bobagem! - tamanha ansiedade pela revelação do final. Geração spoiler. A palavra vem de espoliar, isto é, roubar, privar alguém de algo. Interpretado como negar a alguém o privilégio da surpresa do desenlace narrativo.

A ansiedade derrama inquietude. No silêncio tique-taque da sala, olhos apressados buscam o final da novela. Oportunismo bem matriculado dos alunos que copiam e colam o resuminho das interpretações rasas. A mão vacilante de quem busca na antecipada floração postura de obediente oferenda.

O filme 'Click' revela-nos essa intrigante pressa. Quanto ao acelerar o tempo, na afoiteza exclusiva dos resultados, tornaria nossos afazeres anteriores e habituais inúteis. A vela soprada da satisfação comida do fim da festa. A promoção profissional, despedindo graduais conquistas. O gozo deitado da felicidade comprida do sexo sem protocolar aproximação geométrica de mãos e beijos. Arrependido por perder a oportunidade de acompanhar o crescimento dos filhos, a convivência familiar, a velhice dos pais, ele busca auxílio para reverter o feito. Na verdade, vive-se o apogeu pelo final, negligenciando o envolvimento pela gradual construção e o prazer da observação. Talvez isso explique a dificuldade de alguns lerem os clássicos. Machado de Assis tem razão: 'Tu tens pressa, e o livro anda devagar.' Alguém leria Dostoiévski, se em Crime e Castigo o recluso explicasse os assassinatos no início? O tempo gagueja ansiedade.

Curiosa contradição. Enquanto farejamos novidades mijadas do chão alheio, com o nosso focinho inquieto em busca de acontecidos abertos dos dias, negamos o último particular. Impensável ter spoiler do nosso final que fuja das nossas expectativas. Ao atender as requisições do futuro, passamos grande parte da vida avaliando decisões de saúde, família, finanças. Natural varrermos para o nosso quintal um capítulo final escrito do jeito que desejamos.

Para quem julga um livro pela capa, questiona se o casamento foi bom pela forma que separou, esquecendo o histórico, emoções compartilhadas, tudo parece ser um grande desafio. A começar, talvez por você, que rapidamente leu essa crônica, avaliando-a pelo final.

O autor é professor, autor de antologias, artigos didáticos e ficcionais da Língua Portuguesa ([email protected])

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