Bauru e grande região

 
Articulistas

Silêncio

por Arnaldo Pinzan

10/11/2020 - 05h00

Na madrugada de terça-feira, uma experiência vivida angustiante. Gosto do silêncio, pois nele encontro a paz para organizar meus pensamentos. Quando estudante da FOB, nos anos 70, acordava de madrugada para estudar. Voltando ao assunto, por força do diurético acordei e desliguei o celular que estava carregando e marcando 2h47 minutos. Voltei para continuar o sono, mas esse não veio. Escutei o relógio assinalar as 3 horas. E nada.

Nova badalada marcando 3 e 15h. Moro num condomínio até certo ponto, não tão distante da Rodovia Marechal Rondon. Nenhum som costumeiro de motor de caminhão roncando. Um som longínquo de moto foi escutado, e comparando que antes da pandemia esse som chegava a me despertar pelas trocas de marchas de motocicletas com escapamentos barulhentos. Nenhum carro passando, tanto dentro quanto fora, com som alto, ou pelo menos com ele ligado sem exageros. Nem uma coruja que toda noite me faz serenata com seu piar melancólico. Nem vento soprando as folhas e elas produzindo algum som, vindo do jardim. E assim continuou até ouvir o relógio marcar 3h30. A última badalada ouvida foi 3h45. Por isolamento obrigatório, nem o ressonar da esposa era ouvido. Coçava sem necessidade, para poder ouvir o atrito das unhas, com o pijama. Um silêncio total. Fazia inspirações mais profundas para ver se estava respirando ainda. Nenhum cachorro, mesmo longe, foi ouvido. Pensava: o mundo parou ou eu parei? Parecia, embora ainda não aconteceu esse momento, que estava sepultado, tamanho silêncio. Lembrei da lição que meu amigo e companheiro do Lions Clube de Bauru Centro, o competente dr. Araken Fernando Carneiro, otorrinolaringologista que, falando sobre os nossos sentidos, que a pior falta é da audição. Pensava que era a cegueira e ele disse que a pessoa surda fica completamente sem referência espacial. O cego ainda ouve vozes, barulhos que o ajudam a identificar a direção de onde vem. Não fazia ideia e daí valorizei ainda mais sua especialidade e dos profissionais da Fonoaudiologia, que reabilitam com aparelhos, modernos, estéticos e praticamente imperceptíveis, contrastando com aqueles antigos, inseridos nas armações de óculos, ou com fios ligando o microfone e o amplificador. Assisti a alguns vídeos onde o paciente escuta pela primeira vez, através desses aparelhos ou dos implantes cocleares instalados magnificamente por profissionais que trabalham nesta cidade. Fantástico. Nós nem pensamos o que seria, sem ouvirmos. Num programa há muito tempo, numa das copas de futebol, o apresentador Amaury Jr. foi a outro país, num restaurante totalmente escuro, onde os garçons eram cegos e se escolhia um dos pratos oferecidos. O freguês apreciava a textura, o sabor, a temperatura e tentava adivinhar o que comeu e bebeu. Nem a escuridão reinante no meu quarto, nem um pernilongo fazendo serenata no ouvido. Nada. Virei de decúbito ventral (barriga para baixo) para escutar minha própria respiração e certificar-me que ainda vivia.

Nesse tempo de pandemia, o silêncio cresceu. Poderia ligar a televisão, mas os filmes não me agradam, velho chato, pois a maioria são ensinamentos para o crime, ou que aumentam a adrenalina. Já passei internado e ouvia pacientes chorando, enfermeiras se movimentando, visitas que às vezes ficam com conversas pouco interessantes. Enfim, depois de completar minhas orações, acabei dormindo até 6h, quando o diurético me fez levantar outra vez.

O autor é professor aposentado da FOB USP, sócio do Lions Centro e da MECE da Paróquia do Sagrado Coração.

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