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O amor no varal

por Roberto Magalhães

28/11/2020 - 05h00

No começo, os amantes têm olhos de exagero. As lentes, com que se olham, contaminadas pelo encantamento, fazem com que cada um veja o outro bem maior e melhor do que ele realmente é. Olhos encantados ampliam virtudes e, ao mesmo tempo, apagam defeitos. Nesse estado de arrebatamento, a linguagem amorosa é exercitada em toda plenitude. Os amantes se falam intensamente com olhos famintos; procuram-se com mãos perdidas entre os cabelos; entendem-se perfeitamente com economia de palavras, algumas pueris, outras vazias, todas desse mágico e quase ridículo vocabulário amoroso.

Há entre eles um espírito cooperativo invejável. Um avaliza de imediato o que outro diz, apoiam-se incondicionalmente nas escolhas que fazem. Tudo seria perfeito, não estivesse o tempo correndo silenciosamente para fazer o que melhor sabe: desgastar, corroer, esfriar, mudar o que ontem era para hoje não ser mais. Neste momento, o amor corre perigo e pode perecer. É o que diz o psicanalista Contardo Calligaris: "Talvez a maioria dos relacionamentos amorosos adoeçam e morram por causa disto: não porque o parceiro deixou crescer uma barriga displicente nem porque a gente estaria cansado da mesmice e a fim de novidades, mas porque, ao vivermos juntos, aos poucos perdemos a generosidade. E a generosidade é (ou melhor, deveria ser) o próprio amor."

O arrebatamento apaixonado tão presente no início do relacionamento tende a esfriar-se. É natural que com o tempo os parceiros se vejam de forma realista. O que não pode deixar de existir é a generosidade, esse esforço constante para tornar a vida do companheiro mais leve e mais agradável. Empatia, cumplicidade e presença carinhosa, assim se definem os parceiros generosos.

Por mais solar que seja tal constatação, não são poucos os casais que acabam fazendo o jogo contrário. Do encantamento, passam a viver o desencantamento. As lentes que até então ampliavam e valorizavam as qualidades do parceiro, agora se prestam para aumentar-lhe os defeitos e censurar-lhe o comportamento numa lista interminável de cobranças. Os defeitos do outro estão na forma de vestir, comer, falar, pensar, enfim no jeito "errado" de existir. O que era admiração vira agressividade. Antes, cada um era amado por ser o que era; agora, exige-se que sejam o que nunca foram. Quando tal acontece, o príncipe e a princesa já viraram sapos, ou, dizendo de forma ainda mais prosaica, a vaca foi para o brejo.

Na crônica "Uma cor aquecida", o poeta Carpinejar nos dá um exemplo expressivo de generosidade. Querendo ajudar, ele pendurava as roupas no varal. Ao recolhê-las, contudo, observava que estavam do avesso. Escondido no vão da porta, observou a mulher pendurando-as novamente, mas com o cuidado de virá-las do avesso para preservar a cor. "Eu estendia de manhã, ela estendia de novo no almoço. Nunca me retorquiu, apenas agradecia com um beijo, fingindo que eu acertava. Tampouco eu disse alguma coisa. Mantive o segredo e o meu método errado de esticar os tecidos".

Generosa, a mulher nunca o corrigiu. Generoso, ele continuou errando para que a mulher pudesse, amorosamente, corrigi-lo. Depois, finaliza: "Como um corpo na areia da praia, nossas roupas tomavam banho de frente e tomavam banho de costas". O amor generoso estava pendurado no varal.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e de ficção.

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