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Inéditos cotidianos

por Adilson Roberto Gonçalves

28/11/2020 - 05h00

Abrir o jornal impresso ou, modernamente, a página na internet com sua nova edição, e procurar pelos inéditos. Virou rotina saber qual verso daquele poeta famoso ficou fora de suas antologias, e ler a frase ou manuscrito de outro escritor que não havia sido ainda descoberto que vem agora à tona mediante investigação ou por mero acaso. Na Casa do Sol, em Campinas, pesquisadores descobrem papeizinhos de Hilda Hilst enfiados em seus livros que revelam a gênese de poemas. Outros se imergem nos arquivos públicos, como o da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, tentando uma prosa à distância - física e no tempo - com interlocutores, especialmente os cronistas de outro tempo, de outra vida.

O sucesso é quase sempre retratado e vemos constantemente publicações de inéditos de Machado de Assis, Lima Barreto e Euclydes da Cunha, para ficar entre três desses expoentes. Machado de Assis novamente está a retratar o presente com suas crônicas atemporais, como a presença de um Guedes em seus escritos. A ligação com a descoberto de perfil biográfico de D. Pedro II mostra que o Bruxo continua vivo, apesar da confusão que se fez, pois a publicação que revelou tal descoberta é da UFU e não da UFSC.

Ainda que resenhas sobre tais trabalhos seja recortes, recentemente soube-se dos discursos de Érico Veríssimo que vieram a público e mostram há quanto tempo se pensa um país diferente e melhor. Material inédito, guardado ou mesmo perdido de vários desses 'operadores da escrita' precisa ser investigado para cada vez mais descortinarmos a névoa que paira em nossa formação cultural. As cartas de Clarice Lispector em seu centenário estão nesse contexto, um deleite à ansiedade, já que somente seriam publicadas daqui a um mês, após o início da primavera deste 2020, já caminhando para o término.

Cartas do já mencionado autor de Os Sertões virão a público assim que terminar nossa quarentena. As crônicas de Lima Barreto, já abundantes, são mais extensas do que se imaginava antes, com a leitura mais aprofundada de revistas do início do século XX que estão na Biblioteca Brasiliana do José Mindlin, também com fácil acesso digital, ao menos da maior parte de seu acervo.

A revelação do passado por meio do que esses escritores, melhor, do que esses pensadores revelavam não é apenas curiosidade, pois são elementos importantes para o estabelecimento de sua obra e entender um passado para melhor saber quais são os caminhos a seguir agora para revelar um novo amanhã. Um amanhã que começará pela busca de novas descobertas desses cotidianos inéditos.

O autor é pesquisador da Unesp, [email protected]

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