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Triunfo de Suéllen contra o vespeiro racista

por Cândida Cristina Coelho F. Magalhães

04/12/2020 - 05h00

A democracia ratifica o mérito da prefeita Suéllen Rosim de fazer a mais potente ocupação política de todos os tempos no Centro Oeste Paulista, mulher negra eleita para governar Bauru com toda maestria e competência. Um marco que quebra grilhões e escreve uma história para ser contatada e encantada. A vitória da prefeita faz ninar os sonhos de muitas meninas e mulheres, porque representatividade é arte de se reconhecer no lugar da outra mulher.

Entretanto, tal consagração no cenário político foi alvo de ataques racistas nas redes sociais. Tais expressões de ódio racial também configuram crime e merecem o mais veemente repúdio, pois não se limitam a ofender a dignidade pessoal da prefeita, o que já seria suficientemente grave, mas atingem toda a coletividade e, em especial, as pessoas negras, na dimensão do igual respeito a seus direitos humanos e às garantias constitucionais de que somos titulares. A prática do racismo é considerada como crime inafiançável e imprescritível pelo texto Constitucional e igualmente reprovada por Tratados Internacionais de Direitos Humanos.

Cabe ainda ressaltar a importância que a eleição de mulheres negras assume no contexto brasileiro, pois representam apenas 2% do Congresso Nacional e menos de 1% na Câmara dos Deputados. Portanto, a vitória da Suéllen é um ato político de extrema força, pois abala o vespeiro racista, sexista e machista nas suas raízes mais estruturantes.

Frisa-se que os maiores obstáculos em relação à representatividade de mulheres negras na política encontram guarita no racismo estrutural onde está edificada a base do Estado brasileiro.

O poderoso antídoto contra racismo é a eleição de mulheres negras, pois também permite a justa reparação histórica de nosso passado escravocrata, além de coroar a democracia e propiciar o pluralismo nos espaços políticos de tomada de decisão.

Nesse sentido, a participação política das mulheres negras deve ser legitimada por toda sociedade, sendo inadmissível qualquer ato discriminatório. Escrevo com espírito de luta e oração, mas declino meu texto ao repúdio a violência contra as mulheres negras e conclamo a aplicação das sanções legais cabíveis diante dos crimes de tamanha dimensão. Não se trata de um pedido de socorro, mas uma exigência que os direitos humanos das mulheres sejam alcançados e preservados.

A minha honrada condição de mulher negra e defensora dos direitos humanos das mulheres jamais será silenciada; trago comigo o coro de tantas outras que se sentem violadas juntas com você. Deixo público meu repúdio aos ataques racistas à prefeita Suéllen, manifesto solidariedade e votos de que cumpra seu mandato, outorgado pelas urnas, com toda plenitude e paz.

Suéllen Rosim, seu rosto lindo é também a face de tantas outras mulheres e meninas negras desse país. Que sua vitória e caminhada política inspirem sempre...

A autora é advogada, atuante e militante no combate à violência contra as mulheres há mais de 10 anos, palestrante e poetisa.

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