Bauru e grande região

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O pecado na feira

por Roberto Magalhães

08/01/2021 - 05h00

Santina saiu da missa com alegria no coração e fome na barriga. Tudo tem hora, domingo era dia de fazer a alma ficar leve e de jogar os pecados fora na confissão com o padre Angélico. Depois, de cuidar da alma na igreja, Santina ia cuidar do corpo na feira. Com que fome mastigava os pastéis redondos de carne, quentinhos, mordidos com caldo de cana geladíssimo Comia dois, molhados em dupla garapa, depois entrava feliz naquele mundão colorido de tomates, laranjas e melancias...

Gostava da missa tanto quanto da feira, ali também era um lugar santo, onde todos eram iguais carregando suas sacolas vazias de orgulho e de vaidade. E cada cristão que se preocupasse apenas com a sua cesta, nunca com a sacola alheia. Ninguém tinha tempo para coisas maldosas e pequenas, o melhor era manter os ouvidos bem atentos às promoções anunciadas em cada banca. Santina amava estar ali metida entre as gentes naquela confusão colorida e democrática de frutas e de verduras. Na feira, ela pensou achando graça, as bananas são bem comportadas, nunca escorregam os fregueses em cascas traiçoeiras.

Tampouco as pimentas ardidas, queimam as línguas maledicentes. Nenhum tempo há para picuinhas, é apressar o passo, pechinchar, contar o troco e comprar as verduras e as frutas, que fresquinhas ainda estão. Assim como na missa, Santina gostava dessa comparação, na feira ninguém era melhor do que ninguém, a moda não desfilava vaidade nem penteado, ninguém exibia joias ou outras coisas de humilhar o outro. Podia vir desleixada que luxo, nas feiras, é lixo. Exatamente por isso, as madames, expulsas do salto, passeiam, com seus dedões enchinelados por havaianas entre rúculas, mandiocas e pimentões. Desperfumadas, elas não se atrevem a disputar narizes com o cheiro gostoso das mangas, maçãs e abacaxis. Nos corredores apertados, um vai e vem de corpos e muita esfregação.

Gente encarteirada trombando com pessoas de bolsas magras e de poucas moedas. Negros, brancos, gordos, magros, heteros e homos, velhos e jovens, doutores e analfabetos, todos se esbarrando, sem cobrar de ninguém identidade ou um necessário porquê. Alguns cachorros vira-latas são insistentemente enxotados por lamberem as sobras que rolam para baixo das bancadas.

De repente, o passeio gostoso e inocente da Santina foi bruscamente interrompido. Um homem negro, alto e forte, de olhos penetrantes e dentes lindos, erguia com braços musculosos, uma em cada mão, duas tentadoras mandiocas. Santina, sem perguntar o preço, agarrou-se a uma e comprou mais três, imensas. Com o embrulho de jornal apertado entre os peitos, saiu apressada a caminho de casa. Agoniada, a cabeça da pobre cristã misturava o alarido da feira com imagens distorcidas de imensos tomates, enormes pepinos, polpudas maçãs e muito mel escorrendo do caldo de cana. Merda! Saíra da igreja tão limpa e, agora, tinha certeza de que precisaria novamente se confessar.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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