Bauru e grande região

Articulistas

Sob o brilho das estrelas

por Cinthya Nunes

10/01/2021 - 05h00

Serão infinitas as estrelas sobre nós? Quanto de vida haverá no Universo? E quem será que nos espia do lado de lá? Desde criança me faço essas perguntas, encantada com a imensidão que a noite revela aos olhos. Quando pequena, sonhava que um dia seria possível viajar até a Lua ou visitar planetinhas repletos de seres incríveis, de formas e cores impensáveis. Certa vez, creio que na passagem do Cometa Halley, em 1986, fui com meu pai a um observatório ao ar livre, no qual estava alocado um poderoso telescópio. Recordo-me da emoção que me invadiu quando pude observar a lua e os anéis de saturno. As estrelas, outrora distantes pontos luminosos, também pareciam estar ao alcance das pontas dos pés. Naquela época, morávamos, minha família e eu, em Clementina, cidadezinha do Interior São Paulo. Nossa casa ficava numa chácara, no limite entre a zona urbana e a rural. Naquela época, à noite, havia pouca iluminação e era possível contemplar o mapa das estrelas e aos poucos fui decorando o nome e a posição de várias pequenas constelações. Com minhas irmãs, primos e amigos, costumava deitar no gramado, na frente de casa, para poder olhar melhor as estrelas. Conversávamos sobre tudo e sobre nada, iludidos que a eternidade nos pertencia. Naqueles dias, eu procurava estrelas cadentes e, quem sabe, alguma nave alienígena que estivesse tentando passar despercebida. Muito tempo depois, já adulta, comprei um pequeno telescópio com o qual me enamorei novamente da Lua, mesmo ofuscada pela claridade da metrópole paulistana. Só que nunca mais foi a mesma coisa. Hoje sei que, a não ser em meus pensamentos, é improvável que meus pés venham a pisar solo extraterreno. Do mesmo modo, exceto se já viverem entre nós, escondidos, dificilmente terei contato com algum alienígena. Comparada aos astros, a vida humana é menor do que a mínima fração de um respirar. Não temos tempo para compreender de fato os mistérios que nos envolvem e muitos de nós sequer se lembram de olhar para cima. Às vezes acho que as pessoas perdem o chão porque também perderam antes o teto. Em um ano especialmente difícil como 2020, me surpreendi, nas primeiras horas de 2021, olhando o céu, admirada com as estrelas. Naquele instante, enquanto um novo ano nascia, eu observava estrelas que já nem existem mais, mas que ainda assim iluminam sonhos alheios, guiam viajantes... Maravilha-me pensar que as estrelas estão o tempo todo sobre nós, mas apenas quando o Sol se esconde e o clarão sutil da Lua o substitui, somos capazes de ver delas aquilo que se deixam mostrar. Tão incrível pensar que vivemos em uma ínfima esfera solta no espaço e que, apesar de tudo isso, ainda haja tanta gente se achando o centro do universo, mesmo diante dos superpoderes de um vírus global. Não sei mais os nomes ou as posições das constelações, mas continuo apaixonada pelo que é invisível aos olhos e, quando sonho, permito-me viajar pelo Universo, pendurada numa estrela cadente. De olhos abertos, concentro-me em prosseguir, em fazer o melhor que puder e quem sabe, um dia, mesmo quando não estiver mais fisicamente por aqui, ainda seja possível me tornar como pó de estrelas.

 A autora é jornalista, advogada e por muito tempo quis pegar carona nessa cauda de cometa

Ler matéria completa