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Inflação acima da meta

por Reinaldo cafeo

14/01/2021 - 05h00

O IBGE divulgou a inflação oficial de 2020: o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou no ano 4,52%, sendo que em dezembro o índice teve alta de 1,35%. Este patamar é a maior variação mensal desde fevereiro de 2003 (1,57%) e o maior para um mês de dezembro desde 2002 (2,10%). Em dezembro de 2019, o IPCA foi de 1,15%. A inflação ficou acima da meta fixada pelo Banco Central, que era de 4% ao ano, porém, dentro da margem de tolerância, que é 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

O grupo Alimentação e Bebidas foi o vilão da inflação do ano passado: alta acumulada de 14,09%. Este grupo, que pesa 21,03% no índice total, penaliza os mais pobres. Pela metodologia do IBGE, no cálculo do IPCA é considerada uma cesta de produtos consumidos nas regiões metropolitanas do Brasil por famílias que ganham por mês de 1 a 40 salários mínimos. Quando o estrato é para a população mais pobre, até 3 salários mínimos, é evidente que o grupo Alimentação passa a ter peso mais expressivo, afinal, com baixa renda, a maior parte do consumo recai sobre os alimentos básicos. Lembrando que estamos falando de média, pois, dependendo do produto, as altas ultrapassaram os 30% no ano.

Diante deste cenário, como será 2021 no tocante à inflação? Podemos projetar um índice inferior do que o apurado em 2020. Muito provavelmente a inflação deste ano fique dentro da meta fixada pelo Banco Central, que é de 3,75%. Para que isso ocorra, será necessário que a autoridade monetária reveja a política de juros.

Vamos entender melhor isso. Considerando que a inflação é uma média ponderada dos preços de aproximadamente 450 itens, a taxa de juros mais alta inibe a demanda por bens financiáveis, como eletroeletrônicos, entre outros. Se o consumidor recua na procura por estes itens, a tendência é que os empresários reduzam o preço de venda, e com esta queda, há uma compensação na alta dos preços dos produtos não financiáveis, sobre os quais os juros não exercem influência direta. Assim, a alta nos preços de alguns produtos é compensada pela queda ou estabilidade de preços de outros produtos.

Este raciocínio indica que a taxa básica de juros pode gradativamente sair de 2% ao ano, até atingir um patamar que contribua para que a inflação fique dentro da meta fixada pelo Banco Central. Seguindo esta lógica, é factível prever taxa de juros acima de 3% ao ano, se aproximando mais dos 4% ao ano.

Esta visão macroeconômica não resolve o problema das famílias mais pobres se os preços dos alimentos continuarem subindo. Neste particular, serão necessárias ações setoriais visando eliminar o desequilíbrio entre oferta e procura. É previsível que haverá menor pressão na demanda a medida que este ano tudo indica que não haverá a injeção de dinheiro para as famílias carentes via auxílio emergencial, contudo trabalhar para manter estoques reguladores e ter estratégias de importação de produtos toda vez que houver forte alta de preços, garantirão menor penalização a estes mais carentes, que sofrem ainda com a falta de emprego.

Sem dúvida, este cenário exigirá nova postura do governo no controle da inflação, principalmente do Banco Central do Brasil.

O autor é economista, presidente da Acib.

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