Bauru e grande região

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Iludida passarela

por Roberto Magalhães

22/01/2021 - 05h00

Gosto mais de mim quando não faço pose. De bermuda e de chinelos sou bem melhor. Com a cara no livro, assim mais me gosto ainda, mas muito me desgosta quando me vejo selfiando um sorriso postiço nas redes sociais. O bom da vida é pouco querer ser, fugir do brilho da passarela iludida, estar na paz por nada ansiar. Neste exato momento, leio Walt Whitman. Também o poeta, queixando-se do que tem sido, confessa a inveja que sente da vida simples dos animais: "Nenhum deles é insatisfeito, nenhum enlouquecido pela mania de possuir coisas, nenhum se ajoelha para o outro..." Tudo isso há muito sei, o problema é que diferente não consigo viver. Persiste em mim a mania besta de ir para o centro do palco fazer piruetas para agradar a plateia e implorar migalhas de aplauso. Depois, fechadas as cortinas, lavada a cara da maquiagem, fico só com a minha mentira. Então, sinto o quanto me machuca esse meu jeito errado de viver. Ontem li a mesma lição dos animais em Cecília Meirelles: "Sede assim, qualquer coisa serena, isenta, fiel. Igual à cigarra queimando-se em música, ao camelo que mastiga sua longa solidão, ao pássaro que procura o fim do mundo, ao boi que vai com inocência para a morte. Sede assim, qualquer coisa serena, isenta, fiel. Não como o resto dos homens". Como o resto do homens, não tenho vivido o que há muito aprendi. Cumprir o dia nas coisas pequenas e anônimas, viver o momento que me é dado com a alegria humana de apenas existir. Um violão, um crochê, pincel e tinta, um jardim, prosa fiada, o amigo presente, a mão estendida e o desejo vivo de ajudar e de abraçar. Não é assim, infelizmente, que a vida acontece. "Ter vontade todos os dias de ser o maior dos homens", ironizou outro grande poeta, Baudelaire. Tamanha presunção insana faz lembrar Kant: "Dê a um homem tudo o que ele deseja, e ele, apesar disso, naquele momento, sentirá, que esse tudo não é tudo". Na vida, o mais que nos faz errar o caminho é a indicação perversa da placa mentirosa, ela mesma cheia de escondidos interesses. O perigo da avenida iluminada, piscando convites chamativos, é cairmos na armadilha e não chegarmos a lugar nenhum. Não há fim, tampouco descanso, nesse desejo faminto e infinito de querer ser sempre mais. Eu deveria ter ido ao meu encontro, mas, atraído pelo brilho das luzes, afastei-me de mim. Triste momento em que nos aprisionamos ao aplauso alheio. Enquanto assim caminhamos, a vida passa ligeira, esquecida de viver.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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