Bauru e grande região

Articulistas

Alfabetizam-se sentidos

por Alexandre Benegas

23/01/2021 - 05h00

Carregam curiosidades pintadas. No quadro, corpos em contingência. Nos corpos, olhares. Nos olhares, a insuficiência do mistério do real. Aula de História da Arte. Análise da obra: "As Meninas", de Diego Velásquez, 1656. Alunos acompanhavam com a quietude da pedra a explicação da professora. Duas meninas, com vontade crente irrefreável de ceder, abotoavam fascínio pela obra. Um jovem, cujos cabelos desalinhados repousavam sobre um agasalho displicentemente acomodado ao ombro, via com olhos lassos. Outros, emprestavam atenção dos colegas na tentativa de compreender. Alguns, por desentenderem, debochavam com restos de superioridade machucada.

O intervalo de 15 minutos deitava preguiça. No descanso largado e aceitador, havia quem desistisse, de vez, resmungando impossibilidades. Isso retirava restos de paciência visitada. Motorolas, Samsungs e Apples afoitos buscavam significados. Olhares concorriam com a rapidez das mãos. A pergunta da professora imprimia nos alunos uma inquietação gorda.

Por que um quadro de 365 anos é considerado obra máxima da pintura, se em sua composição estão anões, criadas e um cão? Há obras de arte que não olhamos, somos olhados. Assim ocorre em "As Meninas". Somos aturdidamente observados num clique fotográfico. Por que? Habituados a buscar ilusão na arte, há pinturas que nos surpreendem por exaltarem o real, provocarem nossas percepções. Se por um lado avançamos na velocidade diluída das telas digitais, analfabetos tornamo-nos em apreciar o instante, o flagrante das telas artísticas.

Assim, subestimando o valor da arte, perdemos, pouco a pouco, a capacidade da observação, apressados que estamos. A arte convoca nossa mais recôndita sensibilidade. Necessário, pois, alfabetizar nosso olhar. Contemplar o momento implica assinar qualquer procuração em nome da efemeridade da vida. Apreciar o circunstancial é recusar atestado do imediatismo.

Saudade da minha alfabetização. Os pronomes possessivos me ensinaram a compreender alegrias despachadas, prantos devolvidos. Os interrogativos, a identificar quem ficava nos escaninhos do esconde-esconde suado. O numeral, a disputar bolinhas de gude nas tardes descalças de terra da Bela Vista. As interjeições, a gritar por gols nunca marcados. As vírgulas, a tosquiar os excessos pela simplicidade de um despido ponto final. A metáfora, a esferografar o vermelho escarlate coagulado da minha negação nas notas em matemática. A geografia, a valorizar o espaço, tal qual a uma cadeira, que, vazia, recepciona roupa cheia de afeto dormido. A sensatez, a aceitar contradições da faca, que de tão afiada, já não corta. O verbo - obra de arte da Língua Portuguesa! - a silenciar meus olhos em você e, do reflexo do seu olhar, descobrir uma terceira pessoa do singular.

O autor é professor, autor de artigos didáticos, ficcionais e antologias da Língua Portuguesa.

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