Bauru e grande região

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Sonhos

por Alexandre Benegas

21/02/2021 - 03h00

Todas as manhãs ia à praia apertada num biquíni amarelo. Vestia sempre uma toalha estampada com borboletas. O vento - suserano em suas vontades - encarregava-se de soprar belezas naturais, deixando-lhe expor coxas vibrantes. Uma loira com pele de dar o que os olhos comprovavam com possuir. Na boca, um batom vermelho fúcsia guardava a discrição clandestina dos bares noturnos. Sobre saltos admiravelmente altos, mascava um chiclete com ares de leveza e leviandade. Morenava peitos e coxas em repetidos banhos de mar.

Depois, esticava a toalha acamando a areia com o corpo. Um cacho de homens observava ela deitar as alças do biquíni. Esfregava, com cuidado, um óleo corporal. Dava pra perceber o brilho de suas mãos bem faladas. Cuidava de seu corpo como um templo. Pudera! Vez ou outra recebia visitas.

Meio-dia e meia. Compromissos convocam-na retorno ao lar. Noite de festa. Entre um vinho e outro, um colega da época da faculdade. Acesa, o reencontro chama conversa de corpos. Sem sonho, seus óvulos férteis facilitam minha chegada. Dito e feito. Gerava-se um filho. Inaugurava-se uma mãe. Um beijo quente com restos de cigarro adesiva a despedida dos dois. Minha mãe deixa a festa sorrindo e embevecida de alegria não percebe a velocidade de um carro na contramão. Com o impacto, só percebi o movimento do corpo dela ser projetado contra a resistência do concreto alto do viaduto. Em estado de coma, os médicos constataram inexistir evolução em seu quadro clínico. De início, não detectaram minha presença. Resignados, prescreveram à família o mais piedoso: desligar os aparelhos. Meus avós eram contrários a isso. Impensável abandonar uma casa com a chave para dentro. Impossível esquecer a luz ainda acesa. Assim, minha mãe continuou vivendo, respirando e sonhando. Conheci, desde pequeno, o conceito de milagre. Com o tempo, apelidaram-na de 'A Bela Adormecida'. Com ciúme aceitei, pois as mulheres mais belas são as que sonham. E os sonhos de minha mãe eram por demais especiais. Ninguém podia interrompê-los. Inexistiam finais. E lá estava eu me alimentando dos sonhos, também sonhando dentro de minha mãe sonhadora.

Quando nasci, minha mãe permanecia sonhando. Meu choro não a acordou, muito menos meus movimentos. Adormecida, não emitiu som durante o parto. De algum modo, sou mais filho do seu sonho do que dela. Não conheci seu abraço. Não recebi seu beijo. Ainda assim, conheço-a melhor que ninguém. Afinal, não há algo mais íntimo, intuitivo e pessoal do que os sonhos. E eu e ela sonhamos o mesmo ao longo de dias e noites de nove meses. Se sonhei o impossível, sonhei que ela viveria.

Um dia, minha mãe abriu os olhos. Acordou para morrer. Nesse dia, ela me deu um sorriso último e perfeito, pois descobriu que seu sonho não se tornara realidade como, além disso, a realidade era parte de seu sonho.

O autor é professor de Língua Portuguesa no Colégio Tesla

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