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Covid-19

por Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril

24/02/2021 - 03h00

No último encontro de confraternização dos alunos de pilates no estúdio de Sílvia Quiodi, perguntei ao respeitado professor de redação Roberto Magalhães a receita que o faz criar seguidos contos e crônicas de fatos interessantes, publicados periodicamente no JC. Foi simples a resposta. Falou que qualquer acontecimento comum, do dia-a-dia, que estala na sua cabeça como núcleo de curtos desdobramentos lhe sugere: isso dá um conto! É isso mesmo. Não precisa ser algo invulgar do mundo factual para virar uma narrativa de leitura agradável. Um ponto de partida apto a desenvolver curta história é suficiente. Já meu colega de aposentadoria Romeu tem livro publicado de crônicas, nascidas de fatos reais surgidos e apurados em sede jurídica, descritos na sua obra com aguçada imaginação literata. Concordando com a explicação do professor e já possuindo o ponto inicial encontrado na mídia para criar uma crônica, narro a história do governador de um Estado da região norte que adquiriu, me abril de 2020m um conjunto de ventiladores pulmonares para ajudar na cura dos infectados da Covid.

No outono do ano findo, o governador vinha pressionado pela coletividade da capital de seu Estado para dotar a saúde pública de ventiladores pulmonares individuais, mecanismo que não passa de insumo do conjunto de equipamento para combater a epidemia alastrada pelo País, sem nenhum sinal esperançoso que o próprio tempo a espalhasse nas alturas, devolvendo-a a origem. Acompanhado do secretário da Saúde e assessores, encontrou o equipamento em um estabelecimento próprio para comercializar vinho, nacional e importado. O proprietário da adega informou o governador das razões de vender o produto procurado numa casa de vinhos, convencendo-o da regularidade da extravagante parceria com a exibição de alvarás expedidos pela prefeitura.

Numa pesquisa de preços na cidade, o mesmo produto era vendido por valor inferior, mas sem embargo da diferença de preços, os aparelhos foram comprados com sobrepreço de 300%. Ainda está por esclarecer as razões da compra do medicamento mais caro, todavia, os brasileiros conformados com negócios semelhantes regularmente noticiados lembraram-se que se a compra era onerosa ao interesse público, contudo o lado vantajoso ficava com o comprador. Antes, porém de bater o martelo, seria preciso formalizar o negócio à luz das regras do direito, evitando problemas futuros nos meios fiscalizatórios do estado. Seguindo as cautelas recomendadas pelas normas, o governador consultou o setor jurídico sobre a possibilidade de compra sem que o comprometesse pela transação, recebendo informações seguras que o fato do estabelecimento comercial ser adega/farmácia era questão que só dizia respeito ao município, e que a compra, a despeito do elevado custo, poderia ser feita porque estava protegida por normas de dispensa de licitação. Agradando-se no parecer de entendidos no assunto, mas no íntimo suspeitando da ilegalidade do negócio fechado por preço superior ao dos concorrentes, cerrou os olhos e arriscou um deles. Negócio feito. Comprou 28 ventiladores e mandou entrega-los em hospital credenciado pelo Estado. A entrega do equipamento coincidiu com a de dois caixotes de vinho acomodados no mesmo veículo, mas por compradores diferentes. Por coincidência um paciente em alta médica da Covid, figura conhecida na cidade por viver embriagado, deixava o hospital em cadeira de rodas, sob aplausos de alguns entusiastas pela derrota imposta ao vírus. Mais que depressa, seus olhos pousaram no descarregamento do equipamento e nas caixas de vinho permanecidas na caminhonete. A abstenção forçada de bebida alcoólica nos dias de internamento foi relembrada naquele momento ao dizer à enfermeira que conduzia a cadeira de rodas; - Volte para o hospital e diga ao doutor que não estou curado. Sinto no corpo e na cabeça os sintomas da Covid.

O autor é professor universitário aposentado.

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