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O documentário "Pelé"

por José Roberto Segalla

05/03/2021 - 05h00

Não gosto do Pelé. Tenho razões de família para isso. Mas, registre-se, de quem não gosto é do ser humano, do indivíduo Edson. Quanto ao jogador de futebol Pelé, não houve, até hoje, no mundo, ninguém melhor do que ele. E não serão minhas desavenças pessoais que irão impedir que eu assim reconheça. Motivado pela propaganda que insistentemente anunciava que a partir do dia 23 último a Netflix passaria a exibir um documentário sobre o Pelé, programei-me para assisti-lo.

Que decepção! Nunca imaginei que a Netflix se dispusesse a isso. Gosto de documentários e a Netflix possui vários deles, o que me permite, vez ou outra, assisti-los. Sempre acreditei que ali estava retratada a realidade, com imparcialidade. Assustei-me, pois não foi o que ocorreu nesse documentário sobre o Pelé.

A parte que diz respeito ao jogador, as cenas de jogos, os depoimentos dos antigos colegas de time, estão muito bem. Contudo, vergonhosamente, os depoimentos dos jornalistas esportivos e de algumas outras pessoas, como Fernando Henrique Cardoso, causaram-me profundo asco. Enveredou-se por uma tortuosa narrativa unilateral, tendo sido entrevistados apenas notórios comunistas, que aproveitaram a oportunidade que lhes estava sendo oferecida de aparecerem para o mundo e, pegando carona na estória futebolística, torceram a história social, denegrindo, vergonhosamente, a imagem do país, principalmente no exterior, onde o documentário certamente será exibido.

Deitaram e rolaram falando sobre "o golpe militar de 1964", sobre "os anos de chumbo vividos no país", sobre o "sanguinário ditador Médici" e por aí afora. Juca Kfouri, José Trajano, Paulo Cesar Vasconcelos, Fernando Henrique Cardoso et caterva, pela forma tendenciosa, unilateralista, rançosa com que se pronunciaram, deveriam ser banidos desse documentário.

Não sou alienado. Pelo contrário, minha formação humanista sempre esteve presente. Estava na Faculdade quando da intervenção militar. Casei-me, tive filhos, construí minha história, fui professor universitário, tudo durante estes tais "anos de chumbo".

Problemas existiram, mas reconhecê-los não implica afirmar que a narrativa do dito "documentário" é fiel aos fatos. Para ser leal aos meus princípios, já tomei minhas providências. Gravei o documentário e pedi a um amigo que o editasse, excluindo tudo o que não dissesse respeito ao Pelé e ao seu futebol.

Não gosto do Pelé pessoa, mas amo o meu país. Um documentário que afirma que em 1964 o Brasil não esteve na iminência de se tornar um país comunista, e que ignora que foi o povo, com muito orgulho eu incluído, quem pediu que os militares tomassem posição, não merece figurar assim na minha estante.

O autor é engenheiro, promotor de Justiça e professor universitário aposentado.

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