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Ninguém entende ninguém

por Roberto Magalhães

06/03/2021 - 05h00

Você fala, tudo bem. Falou, tá falado. Mas o outro entende? Se ele for inteligente, poderá, quando muito, aproximar-se do que foi dito. Não o sendo, o melhor é ignorar o que ele entendeu. Coisa impossível entre os homens é a comunicação. Nunca nos entendemos e jamais nos entenderemos. Se bem entendi o Paulo Mendes Campos, peço licença a ele para ilustrar o que estou dizendo. Imaginemos um cego tentando agarrar, num quarto escuro, um gato preto que não está lá dentro. Loucura! Impossibilidade total, questão de lógica.

Lógica que está nas escrituras e nos explica por que fomos condenados a ouvir uma coisa e entender outra. Lembra-se da Torre de Babel? Pois é. Deus, observando a pretensão dos homens de construir uma torre que alcançasse o céu, poderia ter simplesmente puxado a escada e, pronto, derrubaria todos. Mas, isso seria elementar para quem é Deus, por isso resolveu, do alto da sua onisciência, fazer coisa melhor: misturou os idiomas, cada um passou a falar uma língua diferente. Resultado: ninguém entendendo ninguém, a torre de Babel foi pro beleléu. Fomos castigados, aprendemos alguma coisa? Nadinha. Continuamos arrogantes e pretensiosos, por isso a vara continua castigando o nosso lombo. Condenados fomos para sempre a uma comunicação babélica: um diz "Nabucodonosor", o outro entende "nabo na coisa do senhor".

Bobagem insistir, não há entendimento entre nós. Maridos e mulheres, por exemplo, conversam por décadas e se entendem cada vez menos. A esquerda diz que a desgraça deste mundo se deve à direita, mas a direita garante que toda merda é culpa da esquerda. Millôr tem opinião diferente: "Não gosto da direita porque ela é de direita e não gosto da esquerda porque ela é de direita". Para a juventude a vida é uma estrada longa, cheia de prazeres e realizações; para a velhice é muito curta, um sopro, sem tempo de arrumar a mala. Todas as nações exaltam a paz, a liberdade e a igualdade de direitos, mas só os trouxas não percebem que é coisa falada, nunca vivida.

Como compreender o outro se não conseguimos entender a nós próprios? Que me desculpe a gramática, mas não sou um só, eu "somos" muitos, daí o bate-boca e os barracos que me acontecem na cabeça. Isso mesmo, há uma briga de foice entre os muitos eus que me habitam. Um me manda comer a maçã; depois vem o outro me encher o saco com acusações; finalmente, um terceiro, só para colocar, nas minhas costas, o enorme peso da culpa de pedra. Esse é o nosso fado, condenados estamos a ter que nos suportar. Foi o que disse Sá de Miranda: "Comigo desavim, sou posto em todo perigo. Não posso viver comigo, nem posso fugir de mim".

Embora não consigamos nos entender, tampouco pacificar as nossas contradições, menos ainda pôr ordem no caos que grita em nós, temos a pretensão asinina de querer entender o outro. De repente, a frase idiota despenca-nos da boca: "Se eu fosse você..." Por que não te calas, Roberto?

Prometo que o farei, mas me permitam dizer, finalmente, que o Senhor sabe o que faz. Só Ele. Nós, nunca. Se Ele nos quis assim babélicos, não duvidemos de suas razões. Baudelaire, bem entendendo os desígnios divinos, dizia que o mundo só funciona graças ao mal entendido. O importante é que um não conheça o outro, tampouco entenda o que ele diz. É o mal entendido que nos garante a paz. Que continuem felizes os cônjuges enquanto se desconhecem. Não lhes seria bom que um soubesse o que passa na cabeça do outro. Que felizes continuemos todos na caverna, onde a Luz só nos deixa ver as sombras. Obrigado, Platão.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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