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O habitual não é o bastante

por Alexandre Benegas

07/04/2021 - 05h00

Deram-nos um nome, RG, CPF, CEP. Deram-nos histórias, heróis, hinos, mitos, tratados, fórmulas, bandeiras. Entupida de informações livrescas, de um gordo rebanho de Marias, marchava a sociedade disciplinar, de passos obedientes. Agora, o século 21 pertence à sociedade do desempenho. No lugar de lei, mandamento, entram projeto, iniciativa e muita, muita motivação. Karl Marx desenhou uma sociedade dividida por um subordinante e um subordinado. Diferentemente disso, Michel Focault afirmou existir um indivíduo, embora subordinado a alguém, pode ser subordinante a outra pessoa.

Dessas ideologias disciplinares, nasce um homem subordinante e subordinado de si mesmo. Oriundo de uma autopunição, de um ser governado por uma penalidade interna, por um julgamento subjetivo constante, de um empreendedor de si próprio. A Sociedade do Cansaço, termo cunhado pelo filósofo coreano Byung-Chul Han, analisa como somos reféns dos nossos pensamentos e inclinações. Para Han, os males da alma surgem de um excesso de positividade presente nas esferas da sociedade contemporânea. Não por acaso, o predomínio de mensagens de ação produtiva e ideais de que todas as metas são alcançáveis. Tal fenômeno encontrou musculatura argumentativa a partir do slogan da campanha presidencial de Obama em 2008: 'Yes, we can" e da campanha da Nike, "Just do it." Por isso, o excesso de produtividade e, é claro, a constante necessidade de ser funcional. Um propósito de autoafirmação em relação à produtividade do tempo. E o ócio? Tédio como auge do descanso da alma. Uma liberdade aprisionadora, entregue à contingência de permanecer obstinado a produzir. Pudera! O tempo, em sua madureza, conhece o preço exato do ócio, dos quebrantos deitados, dos bocejos alongados de exaustão.

Nietzsche, em sua obra 'Humano, Demasiado Humano', pontua que pela falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Isso porque, em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, irresolutos valeram tanto. Dessa forma, todo elemento e tempo contemplativos são desautorizados pelo relevo ao desempenho circunstancial. Todo cansaço capaz de afrouxar as presilhas da nossa atividade itinerante é abominável. Toda fadiga capaz de desabotoar o foco da nossa atenção voltado a determinado exercício é execrável. É imperativo ser ativo. O escrivão tornou-se a própria escrivaninha. O mesário transformou-se na própria mesa de uma papel em branco à disposição de um roteiro.

A Sociedade do Desempenho rói unhas, come cutículas, reinaugura gestos expectantes, palmilha até onde se desconhece da areia inexplorada. É a constante. É ser desdobrável. É montanha de quem requer aclives para ambições desmedidas. É lago na exigência de espelhos para acomodar narcisos. É árvore, cujo lenho intenciona incensar orgulhos. Inóspita de si mesma, permanece entulhada de vazios em estado de urgência.

O autor é professor de Língua Portuguesa.

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