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Tiradentes ultrajado

por Pedro Grava Zanotelli

09/04/2021 - 05h00

No dia 9 de dezembro de 1965 o Marechal Humberto Castelo Branco, primeiro presidente do período de governo militar, promulgou a Lei nº 4.897 declarando em seu Art. 1º Joaquim José da Silva Xavier patrono cívico da Nação Brasileira. No artigo 2º determina a comemoração em sua homenagem de forma oficial.

No período colonial e mesmo no império a figura de Tiradentes era tida como a de um insurgente, mas para o povo brasileiro ele era um herói. Como ele se sacrificou sob a bandeira "Liberdade ainda que tardia", de ideal republicano, defendido pelos inconfidentes, sua imagem heroica foi resgatada pela Proclamação da República e a data do seu sacrifício passou a ser comemorada.

O 'tributo' definitivo da nação brasileira veio com essa Lei 4.897, que sepultou o estigma colonial: "Art.3º Esta manifestação do povo e do Governo da República em homenagem ao Patrono da Nação Brasileira visa evidenciar que a sentença condenatória de Joaquim José da Silva Xavier não é labéu que lhe infame a memória, pois é reconhecida e proclamada oficialmente pelos seus concidadãos, como o mais alto título de glorificação do nosso maior compatriota de todos os tempos".

Joaquim José da Silva Xavier era o menos ilustre do movimento da Inconfidência, que tinha pessoas importantes como os poetas Claudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga, mas era o mais diligente na conquista de novos adeptos. Foi com essa finalidade que estava no Rio de Janeiro quando houve a delação de Joaquim Silvério dos Reis e foi preso no dia 10 de Maio de 1789. Mas não foi uma prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica de plástico, para ficar na sacada do prédio tomando cerveja. Foi numa masmorra com uma pesada corrente de aço ligada com grilhões nos punhos e tornozelos.

Foram três anos de interrogatório e ele, sempre altivo procurando, sem se entregar, não incriminar nenhum de seus companheiros. Não queria que nenhum morresse e fez de tal forma, inculpando-se que, por surpresa de todos, a sentença condenatória da Rainha D. Maria I foi mudada na véspera e nove dos envolvidos foram perdoados e condenados ao degredo, enquanto a sentença de morte foi mantida para apenas um: Tiradentes.

Enforcado na manhã de 21 de abril de 1792, na cidade do Rio de Janeiro, teve o corpo esquartejado em quatro partes e espalhado pela estrada de acesso a Ouro Preto. Sua cabeça foi exibida em uma estaca colocada na praça central da cidade, como demonstração de força da Coroa para evitar que futuras rebeliões acontecessem. E por mais que a Coroa e o Império quisessem apagar a sua imagem ela se manteve viva e as pinturas impressionantes como 'Tiradentes esquartejado', de Pedro Américo, em vez de medo provocam sentimento de gratidão pelo heroísmo, morrendo para que outros não morressem e o povo continuasse encorajado a continuar a luta pela liberdade.

Grande lição essa, agora ultrajada por decisões que já levaram à morte mais de 340 mil brasileiros e pode chegar aos 500 mil, na previsão do neurocientista Miguel Nicolellis. A razão é que o inconfidente inspirava-se no culto estadista Thomas Jefferson, principal autor da Constituição Americana e o governante atual no prepotente e arrogante Donald Trump. Aí está a diferença.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

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