Bauru e grande região

Articulistas

O Deus que dá é o Deus que tira

por Paulo Cesar Razuk

10/04/2021 - 05h00

Antiga tradição nos conta que a vida é como a imagem de um tapete. Olhando do lado direito, é um trabalho intrincadamente tecido, reúne fios de diferentes tamanhos e cores para criar um desenho. Mas, virando-se o tapete pelo avesso, vê-se uma confusão de fios, uns curtos, outros compridos, alguns inteiros, outros cortados e amarrados. Essa imagem ajuda-nos a explicar a realidade.

Deus tem um objetivo dentro do qual se encaixam todas as nossas existências. Seu desígnio exige que algumas vidas sejam torcidas, amarradas ou cortadas curtas, enquanto outras se estendem por comprimentos impressionantes. Não porque um fio é melhor que o outro, mas simplesmente por exigência do desenho ou do projeto criado. Para nós, sempre vendo o avesso do tapete, não percebemos os desígnios de Deus e Sua forma de tecer esse tapete parece arbitrária e sem lógica para nós. Visto, porém, do alto, do ponto de vista de Deus, cada torção e cada nó têm seu lugar no grande propósito de nos dar condições de evoluir e de valorizar o tempo que nos foi dado.

Essa mesma tradição conta a parábola sobre dois irmãos gêmeos que, antes do nascimento, descansam tranquilamente no útero da mãe. Alimentados sem esforço e aquecidos pelo fluido embrionário sentem-se em paz e seguros. Eles não concebem um modo de vida melhor, mais confortável ou diferente. A partir de determinado mês, atentos ao seu meio ambiente, percebem que ele fica cada vez mais apertado e começam a pensar sobre o que irá lhes acontecer. Cada um dos irmãos tem um ponto de vista diferente. O pessimista pensa que seu lugar é ali e morrerá se tiver que sair dali. O otimista tem certeza de que outra vida o espera depois que forem expelidos de seu habitat atual. Ele acredita que não foi colocado ali durante nove meses e alimentado sem qualquer propósito.

A parábola nos lembra que, uma espécie diferente de existência nunca pode ser precisamente descrita ou imaginada antes de nos encontrarmos com ela. Se tivesse consciência, uma criança por nascer, seria incapaz de imaginar a vida fora do útero. Do mesmo modo, nós aqui na Terra não podemos compreender o significado de um mundo divorciado dos nossos corpos. Mas, o fato de não sermos realmente capazes de imaginar isso, não faz disso algo menos verdadeiro. Deixar o nosso corpo após a vida pode muito bem ser o nascimento da alma, assim como deixar o útero é o nascimento do corpo.

A morte exige que deixemos de olhar exclusivamente para a camada exterior da vida, o componente físico circunscrito pelo corpo humano. É preciso aprender a penetrar nesta camada e ver a alma humana, nossa ligação com a eternidade. Nós sentimos a presença da alma. Ela revela-se no corpo através da intuição, das emoções e dos pensamentos para atingir seu objetivo no mundo: compartilhar, evoluir e, um dia, fundir-se à Luz infinita que a criou. Portanto, para se ter um dia significativo reconheça sua alma, a intensidade e a força moral que ela proporciona. Ela confere um novo sentido para cada atividade, permite descobrir a santidade e a divindade em tudo o que se faz.

Saber da presença da alma intensifica a vida, nos permitir viver a vida, aceitando a sombra circundante que também define a vida. Saber da presença da alma nos permite entrar no jogo da vida para ganhar, isto é, amar a perda com a mesma intensidade com que se ama a conquista, sabendo que uma é o avesso da outra e que é impossível ser grato a uma sem ser, também, grato a outra. Porque, assim como o sono vitaliza o corpo e faz parte de nosso equilíbrio, também a morte é parceira da saúde de nossa alma.

O corpo e a alma são adversários, cada um lutando por diferentes necessidades e pela dominância. No entanto, eles têm que aprender a se valorizar mutuamente. A alma precisa de um corpo sadio para se expressar. O corpo precisa conhecer e respeitar as regras que fundamentam a própria vida. E, em determinada hora, o corpo precisa saber se perder e confiar na autoridade da alma. O Deus que dá e o Deus que tira é, na mesma medida, o Deus da vida.

O que o Deus que dá a vida não quer é que desperdicemos nossas vidas. Esse desperdício, quando atinge níveis crônicos, é uma das piores misérias humanas, se não a pior.

Expõe a falta de sentido com que pautamos nossos dias e despeja sobre nós a constatação de que seria melhor não ter nascido.

 O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica - Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

Ler matéria completa