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Aprendizagem pandêmica

por Adilson Roberto Gonçalves

02/05/2021 - 05h00

O aprender se dá nas escolas, mas não somente nesses estabelecimentos, fechados agora em sua maioria. O que a quarentena também revelou é que a inadequação das escolas para o aprendizado é anterior à pandemia. As reflexões dos que condenam a volta às aulas agora são pertinentes, pois não há como se falar em retorno presencial no pico de mortes pela Covid-19. Lamenta-se, mas a lógica não permite outra atitude.

Aprendemos também com nossas vivências e o período de maior reclusão levou a conhecimentos antes esquecidos ou não sabidos. Assim, até quando é de interesse, a ciência vem para justificar atos de fé, ou de falta dela. Mais do que embate entre ambas, a decisão do STF por ampla maioria que havia proibido o retorno a cultos e cerimônias religiosas presenciais refletiu apenas a prevalência do bom senso. No entanto, é emblemático que, para uma decisão aparentemente óbvia, os magistrados tiveram de se basear em fundamentos científicos. A liberdade religiosa nunca esteve em discussão, mas os mercadores do ódio querem sempre causar confusão.

Assistir a filmes, séries e documentários virou um mantra e, se não o fizer, parece que não viveu adequadamente a pandemia. Beirando a um porre de imagens irradiadas pelas telas de tv e celulares, um documentário chamou a atenção pela filmagem de cinco anos atrás e propositadamente lançado agora. Julguem e critiquem, mas gostei - e muito. Um documentário é sempre um recorte da realidade, dentro de uma narrativa, de uma visão de quem a registra. "Alvorada" não é diferente, mas é injusto atribuir a retirada de Dilma Rousseff do poder a seus erros. Desde antes de iniciar o segundo mandato já sofria ataques ininterruptos do inconformado Aécio Neves que levaram a boicotes na correção da política econômica.

Ignorar isso é desrespeito à história. Qual outro político suportaria com frieza aqueles dias finais em Brasília? No mais, quem teve o privilégio de abraçar a ex-presidente sabe do calor de seus gestos e palavras.

Ciência aplicada, reconhecida, respeitada e seguida não significa que tudo está bem com o governante que assim procede. É caso de lembrar que, até outro dia, João Doria queria privatizar o Instituto Butantan, ainda que seja o Messias de barro (que ainda nos conduz) a causa da tragédia em curso. Por fim, até em acontecimento alhures podemos fazer questionamentos para aprender um pouco mais da história - recente e pretérita - e correlações pitorescas com a etimologia que tanto nos persegue quando queremos usar a palavra exata para a expressão do fato.

O caso do julgamento nos Estados Unidos do policial Derek Chauvin, que matou George Floyd, poderia ter traçado um paralelo com o homônimo Nicolas, soldado francês de dois séculos atrás, que levou ao termo chauvinismo, segundo as enciclopédias. Perseguição a estrangeiros e ódio a minorias estão no contexto, tanto do passado quanto do terrível presente.

 O autor é pesquisador na Unesp de Rio Claro.

 

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