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A frase é uma batata quente

por Roberto Magalhães

04/05/2021 - 05h17

"Ela me dá capim e eu zurro". Que frase! Ela me fisgou de cara. No mínimo, é desafiadora. Esfinge ameaçando o leitor: "Decifra-me ou te devoro!" Claro que tem sentido escondido. A frase diz uma coisa, a gente pensa que entendeu, mas, depois, entende que não entendeu nadinha. É o meu caso. Sim, eu entendi que ela dá capim e ele, em resposta, zurra. Mas e daí? Continuo na mesma. Frase assim é batata quente queimando os miolos da gente. E se a gente não consegue interpretar o sentido figurado, passa a ser o próprio jumento urrando. A literatura está cheia de frases sacanas assim. E confessemos, boa parte das vezes, nossa interpretação não vai além de asnática.

Fabrício Corsaletti usou essa frase para dar nome ao seu primeiro livro de crônicas. Isso mesmo, ele só usou porque a frase foi dita pela personagem Drômio de Siracusa, na cena II de "A comédia de erros", do genial Shakespeare. Aliás, para evitar acusação de que estivesse exibindo erudição, Corsaletti confessa a mais redonda ignorância sobre a obra imortal do bardo, coisa que o faz com fino humor: "Não sei nada de Shakespeare, mas dizem que Shakespeare sabe tudo de mim, isto é, de tudo aquilo que é humano - e bem ou mal, faço parte da espécie". Também eu, embora bem menor, mas, ainda assim, filho de Deus, fico honrado pelo mesmo motivo.

Voltemos à frase. Primeiro, vejamos qual é o entendimento do Corsaletti. Para ele, a frase solta, ou seja, fora do contexto da peça, induz a pensar num amor feliz: "Um amor simples, realizado, cotidiano, entre duas pessoas comuns nem feias nem bonitas, nem perfeitas nem mal intencionadas, metade sublimes, metade neuróticas..." Pronto, ele está falando de gente como a gente. Ótima leitura, essa de que, amorosamente, ela lhe dá capim e ele, em agradecimento, zurra.

Aliás, dizem os entendidos que o zurro do jumento é tão potente que chega atingir 3 quilômetros. Esse pormenor acaba conferindo à frase um sentido orgásmico interessante: que gozada escandalosa!

Claro que outras leituras são possíveis. Pedindo licença ao autor, arrisco outra numa clave nada amorosa. Explico-me. Ela, claro, está bem na fita no papel de alguém que doa alguma coisa. Mas ele já não parece desfrutar de igual posição. Ele recebe o quê? Capim. E faz o quê? Zurra. Juntando os pontos: um jumento dependente de uma mulher que é a dona do capim. Sem querer voar alto, mas já voando, ele não passa de um jumentão dependente. O detalhe: "capim" , na linguagem dos malandros, significa dinheiro, grana, bufunfa, arame, tutu, caraminguá, cascalho, carvão, jabá, metal, tutu, zerzulho... Ele, sem nenhum capim, não tem alternativa senão zurrar, agradecendo o "arame" recebido. Convenhamos, o que mais tem hoje em dia são jumentos comendo nas mãos dessas mulheres empoderadas, cheias de capim!

Bem, mas de que valeu o raciocínio hipotético se a frase continua aberta e desafiadora. Quem quiser palpitar, não vai pagar nada. Repito que Corsaletti deu nome ao seu livro, citando a frase de Shakespeare. E quando pensei que, graças ao meu poder interpretativo, tudo estava resolvido, ele faz nova e intrigante citação e me joga de novo no mato.

A frase, agora, é de autoria do avô de um velho amigo dele o Gonza: um avô raso, sem a menor importância. O Olha só a frase do avô do Gonza e que ficará para a posteridade: "Quem for melhor do que eu, que se foda!". Nossa! Frase enigmática!

Cabe um mundão de conjecturas dentro dela, mas vou ficando por aqui.

O autor é professor de redação e autor de diversas obras didáticas e ficcionais.

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