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Cara de pau

por Roberto Magalhães

29/05/2021 - 05h00

Cada vez mais me convenço da importância do fundo do poço. Só com água batendo no pescoço, a gente começa a correr para evitar o prejuízo. Enquanto tal não acontece, vamos empurrando com a barriga os problemas que deveríamos resolver com a cabeça. No trato da natureza, a coisa não tem sido diferente. Deixando para depois, fomos derrubando matas, poluindo ar, águas, destruindo mananciais, provocando mudanças climáticas, agravando o efeito estufa, destruindo habitats com extinção de espécies e perda de biodiversidade... Até mesmo essa monstruosa pandemia é resultado da devastação ambiental que obriga homens e animais silvestres a viverem em estreita e perigosa distância de comercialização. A continuarmos assim, novas epidemias virão, nada impedindo que os resultados sejam ainda piores do que os que amargamente conhecemos. Em face de tamanha agressão, alguém duvida de que estejamos chegando ao fundo do poço? Teremos tempo para evitar o fim do mundo? Foi o que perguntou Fabricio Pereira da Silva, pós-doutor no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Santiago, no Chile.

Torcemos por uma resposta afirmativa e salvadora, ainda mais sabendo que o fundo do poço realiza milagres. É o caso do chamado "capitalismo esclarecido" que já começa a mexer nos bolsos, sempre zipados, para evitar o pior. Recentemente, sob a iniciativa do presidente Biden, lideranças de mais de 40 países se reuniram virtualmente na chamada "Cúpula de Líderes" para discutir a urgência da redução das emissões de gases-estufa. Cinco dos dez maiores emissores anunciaram corte consideráveis até 2030: os Estados Unidos 50%; a União Europeia 55%, O japão 46%, O Canadá 45% e até mesmo o Brasil prometeu 43%. O que não faz a água no pescoço?

Essa história predatória contra o meio ambiente está visceralmente relacionada à imagem que o homem faz de si diante da natureza, ou seja, uma questão posicional: estaria ele dentro ou fora dela? Comecemos por essa última. O homem fora, "Senhor da natureza", considera-se acima da natureza, cuja existência teria único fim: servi-lo num lauto banquete de fome insaciável. É a chamada teoria antropocêntrica que finca raízes na filosofia cartesiana. A natureza não vai além de um instrumento de progresso e enriquecimento, nenhuma preocupação havendo com a finitude dos recursos naturais. Na mesma linha do pensamento de Descartes, Francis Bacon chegou a afirmar que o "homem deveria ser visto como o centro do mundo" e que, se dele fosse retirado, toda a natureza perderia sentido por não ter mais a quem servir.

Felizmente, cada vez mais se consolida a visão de que o homem não está fora da natureza, mas é parte dela. Somos todos criaturas, elementos constituintes do universo, razão por que devemos viver de forma cooperativa e sustentável. Dependemos uns dos outros, não existindo, neste reino, trono ou senhor. Bentham, Schopenhauer e Francisco de Assis são os principais alicerces dessa visão de fraternidade cósmica. Muito triste abrir o jornal e saber que, para piorar ainda mais a nossa imagem internacional de devastadores irresponsáveis da Amazônia, a Embaixada dos Estados Unidos informou a nossa Polícia Federal que apreendeu diversos carregamentos de mais de 74 toneladas de madeira nobre, então exportada ilegalmente para aquele país.

Mais insano, ainda, é saber que, na investigação desse crime ambiental, um nome de peso surge como principal suspeito: o do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Como assim? Pode?

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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