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E se a China entrar em guerra com o Brasil?

por Paulo Alves Rochel Filho

01/06/2021 - 05h00

A Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado Federal, batizada de "CPI da Pandemia", ouviu no dia 18/05 o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que negou que suas declarações em relação à China prejudicaram o processo de aquisição de vacinas e insumos. A atuação do ex-chanceler recebeu duras críticas do relator Renan Calheiros (MDB-AL), da senadora Kátia Abreu (PP-TO) e do próprio presidente da Comissão, senador amazonense Omar Aziz (PSD).

Durante sua gestão à frente do Ministério das Relações Exteriores, Ernesto Araújo teve uma relação tormentosa com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, principalmente após os conflitos entre a representação diplomática e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que fez afirmações sobre a responsabilidade da China em relação à pandemia. Em discurso no Palácio do Planalto no dia 5 daquele mês, o próprio Presidente Jair Bolsonaro, ao falar sobre a crise sanitária, disse que "é um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu por algum ser humano ingerir um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que estamos enfrentando uma nova guerra? Qual país que cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês".

"Será que estamos enfrentando uma nova guerra?" A pergunta foi lançada pelo Presidente e merece nossa reflexão. Seria possível uma guerra entre a China e o Brasil? É difícil imaginar que a Força Aérea do Exército de Libertação Popular da China envie seus modernos caças J-20 para sobrevoar os céus de Brasília. Parece pouco provável que um destroier Type 055 com suas 13.000 toneladas e 112 células de mísseis se posicione na baia da Guanabara ou bloqueie o porto de Santos. Ninguém espera que tropas das Forças Terrestres possam marchar em território brasileiro. De fato, uma guerra militar clássica, com embate de tropas, não parece um cenário possível.

Afinal, o comércio Brasil-China em 2020 superou US$ 100 bilhões, fazendo daquele país nosso maior parceiro comercial. As exportações brasileiras bateram o recorde de US$ 67.685 bilhões e as importações US$ 34.042 bilhões. Com isto a China é o principal importador brasileiro e também nosso principal fornecedor, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia.

Enquanto exportamos commodities - soja, petróleo, minério de ferro, celulose, carne bovina, suína e de frango, algodão bruto e cobre; importamos produtos manufaturados, plataformas de perfuração, circuitos impressos e aparelhos de telefonia, motores, geradores, compostos de carbono, tecidos, automóveis, tratores, inseticidas, herbicidas, produtos laminados de ferro e aço, aparelhos eletrônicos e, mais recentemente, vacinas contra a Covid-19. Mas se um enfrentamento militar é algo improvável, o que aconteceria se a China mexesse na balança comercial? Se diminuísse sua parceria e reduzisse o volume de negócios com o Brasil? E se perdesse o interesse pelo programa de privatizações brasileiro e evitasse novos investimentos?

Um desequilíbrio importante nas relações comerciais entre os dois países com toda certeza traria abalo à nossa economia e prejuízos a diversos setores produtivos, com reflexos nas cotações do dólar, euro, ouro e petróleo. Certamente teríamos falta de insumos para a agricultura e indústria, desemprego e aumento da inflação. É preciso ter em conta que as guerras não se fazem somente pelos tiros dos fuzis ou pelo disparo de mísseis. Modernamente as guerras híbridas são conduzidas com investidas mais sutis, que podem mesclar diplomacia, uso de tecnologias invasivas, ataques cibernéticos, lawfare ("batalhas judiciais"), manobras econômicas, tudo de forma convergente e articulada numa estratégia com o potencial de minar uma sociedade e suas instituições.

Uma guerra não linear com a China, ou mesmo frentes de batalha assimétricas contra o Brasil em determinados ambientes, teria poder devastador e com toda certeza desestabilizaria nossa economia. E sabendo que a economia é fator importante para o eleitor, certamente influenciaria no resultado das próximas eleições.

O autor é advogado e pós-graduando em Direito Corporativo e Governança Empresarial pelo Instituto Brasiliense de Direito Público de Brasília.

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