Bauru

Articulistas

É preciso dizer

por Alexandre Benegas

06/06/2021 - 05h00

Ainda na UTI, as fortes dores abdominais, agora seguidas de arritmia cardíaca, o imobilizavam por completo. Ele se esforçava para dizer. Familiares alternavam-se em orações. A esposa, velha companheira, obstinava sua presença com afinco da ave-maria cheia de graça senhor é convosco. Maldita doença abreviava seus dias. Ele precisava dizer. Tão logo perdeu sua visão, a desgraçada diabete interrompeu sua permanência. Em casa, a viúva procurava distrair inconsolável dor. Levou tempo para ela levantar o lençol, deitar-se de corpo inteiro. A mão do velho faltava-lhe ao travesseiro. Na sala, o sofá esticado não dialogava mais com a manta com que ele cobria os joelhos para assistir, de primeira, às partidas da quarta irem pra segunda. Seu silêncio manco compunha um cenário de aconchego. Na mesa, o vazio da esquerda de sua cadeira orgulhosa por cerzir companhias. Na cama, resíduos de um sono inexato misturados a roncos e risadas conservadas pela condescendência larga do escuro. Por isso, ele gostaria de dizer.

No coração da velha, memórias mofadas pelo tempo secavam no varal dos dias a vida em estado de proparoxítona: atônita. Numa tarde, buscou no guarda-roupa do casal ruminar alegrias embotadas do casamento. Reviver na roupa do velho sentimentos despachantes de um amor aturdido pela perda. Uma paz poente de aroma capim-limão imprimia ao armário alegria expectante. Toda manhã ele acordava em estado de rascunho disposto a passar o dia a limpo. O velho era danado de cheiroso. Um pijama caju queimado dormia lembranças na gaveta do meio. Mal dobrado, negligenciava a obediência dos tecidos, parecendo desprezar a disposição silenciosa das peças. A indisciplina torta do roupa motiva-a arrumá-lo. Não demorou muito para perceber um envelope branco aninhado a ele. Entre vogais e consoantes gagas arrastadas pela dificuldade de governar a caneta como mastro, a palavra família. Ele gostaria de dizer. De imediato, ela ri, o velho doava duas cômodas bem espaçosas para sua netinha; quisera que ela guardasse bem guardado seus segredos contados em pé pra vó ao lado esquerdo da leiteira bojuda de morna sobre a boca do fogão; assim não mais que isso ela guardará o balé das folhas que, obedientes à força do vento, reconhecem no chão a convocatória das quedas. Lá também haverá espaço para entender e guardar que - ciranda cirandinha, vamos todos cirandar - as rotações da vida, sempre nos surpreendendo com oportunidades de imperecível aprendizado.

Para a filha, um vidro, cheio de vazios para guardar coleções de cheiros do colo da mãe. Aos bisnetos, que um dia possam entender a política ensandecida do país, a geladeira; poderão com folga remida trocar 05 cervejas geladas por 01 certeza quente. Para ela - sim ele gostaria de dizer - minha velha, ao partir, clame a Deus pelas primeiras horas do dia; as nuvens, suaves que são, permitem em sua travessia singela bagagem.

O autor é advogado e professor de direito

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