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Quando o vírus bate à sua porta

por Rosana Poli

08/06/2021 - 05h00

Me lembro que quando era criança minha mãe trabalhava como enfermeira no Hospital Lauro de Souza Lima de Bauru, um Instituto renomado nacional e internacionalmente na área de dermatologia, voltado mais especificamente, à época, para a hanseníase (lepra, popularmente conhecida). Tinha uns 8 anos de idade e, sinceramente, não entendia direito o que era a hanseníase. Ouvia meus pais falando sobre a doença (meu pai também era da área da saúde - patologista na FOB - Faculdade de Odontologia). Quando realmente comecei a entender o que era a hanseníase, lembrou-me que senti mais medo ainda… Por mais que minha mãe me explicasse que a transmissão só se dava por compartilhamento de toalhas, lençóis, talheres etc… eu ainda assim sentia medo. Medo da doença, medo da perda, simplesmente medo…

Esse preâmbulo sobre o Lauro de Souza Lima e a hanseníase é para chegar nesse vírus maligno, que eu particularmente acredito que foi criado em laboratório sim, e que continua amedrontando a todos nós. Há quase um ano e meio vivemos reféns do corona milimetricamente microscópico. Não sabemos onde ele está e quando pode atacar! Mas sabemos como, daí a necessidade da proteção (máscaras-álcool).

Abrir as redes sociais tem sido um ato de coragem! Nunca vi tantas perdas de pessoas, umas conhecidas outras não, mas no coração da gente fica a "dor do outro". Nunca escrevi tanto "Meus sentimentos", para pessoas que eu nem conhecia e para muitos queridos também! Aí, nesse clima de catarse emocional, uma pessoa do seu núcleo familiar é diagnosticada com o vírus!

Entra em cena novamente o vilão da história: o medo. Medo por ter estado no mesmo ambiente, medo porque toquei em algo, medo porque fui pra casa ao lado da minha família, enfim, medo da perda desse ente querido, medo de tudo… Sensação total de impotência.

A gente sabe que o coronavírus já matou milhões pela infecção em todo o planeta, mas também levou outros milhares por doenças provocadas pela ansiedade, pelo pânico, pelo medo. Prova disso é a quantidade de mortes por infarto e AVC, sem falar nas centenas de reféns "depressivos" em razão do vírus.

Além disso, está comprovado cientificamente que o estado emocional do paciente da Covid (ansiedade, medo, pânico) também baixa sua imunidade e pode provocar uma piora do quadro. Mas como não sentir medo de um vírus tão letal ?

A verdade é que não estamos prontos, nem politicamente, para massificar a vacinação o mais rápido possível na tentativa de proteger toda a população e nem prontos para enfrentar o medo dessa doença invisível que mata.

Eu sei como a ausência física de um ser que a gente ama deixa um vazio muito grande. Isso é fato! Mas, creio também que a vida segue do outro lado e a esperança do reencontro nos motiva a continuar por aqui trancados, amedrontados, mascarados, esfregando loucamente as mãos em sabão e álcool gel e ainda esperando pela vacina ...

O fato é que poucos tiveram a oportunidade de crescer espiritualmente durante essa pandemia, pensando no todo, mudando seus valores, se aproximando mais da religiosidade… Outros (muitos) só reforçaram seu egoísmo, sua ganância, seu individualismo... Mas a verdade é que "as alegrias nos diferenciam e o sofrimento nos coloca sempre no mesmo chão" - padre Fábio de Melo. Preparados ou não, temos que nos apegar a fé e controlar nosso emocional, porque todos os sentimentos (bons ou ruins) refletem no nosso corpo.

E a experiência que fica de tudo que estamos passando é que nunca foi tão importante a gente se agarrar em qualquer pontinha de felicidade, nunca demos tanto valor ao ar que respiramos e nunca sentimos uma necessidade tão grande e universal de valorizar a vida! Por isso eu sempre peço pra Deus: "tomara que as nossas vontades coincidam, mas se não coincidirem, que a tua prevaleça!".

Se cuidem!

A autora é jornalista, mestre em comunicação midiática pela Unesp Bauru.

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