Bauru

Articulistas

Naquela rua...

por Matheus Terra

10/06/2021 - 05h00

Naquela rua tudo era tão alegre que as crianças brincavam tanto, mas tanto, que os pés chegavam a machucar e o corpo suava mais que de um atleta e a alegria era tão imensa que qualquer um que lá passasse se perguntaria, encabulado: "Mas por que é que essas crianças estão tão felizes?". E não seria o mesmo depois de passar por aquela rua. Depois do esconde-esconde havia a água fresca que algum dos garotos buscava em casa. Era alegria pura e discussão total em volta do que viria depois: futebol de rua, pé na lata, mãe da rua. E era em vão que discutiam, pois naquela rua o dia parecia ter pouco mais de 48 horas e só acabava quando as mães saíam pra chamá-los para tomar banho e ir jantar.

E quando alguma mãe apontasse no portão e bradasse "Fulano! Entra pra dentro tomar banho, agora!" a discussão novamente se tornava presente. Ninguém queria sair daquela rua pra ir embora, como se não houvesse amanhã, e depois de amanhã, e o final de semana todo pra brincar, como se só fosse possível brincar naquele único dia naquela rua e como se aquele fosse o último para brincar. E um dia foi. Sem que percebessem, numa bela tarde em que os raios de sol eram tão fortes, ou talvez o dia estivesse nublado ou qualquer coisa do tipo, um dos garotos não saiu naquela rua e depois faltou outro, e depois outro até ninguém mais sair pra brincar. Naquele dia as árvores sentiram falta de serem escaladas, a areia chorou por não ser mais pisada, a grama se entristeceu tanto que deixou seu verde vivo dar lugar a um amarelo triste, melancólico, e aquela rua nunca mais voltaria a ser a mesma.

Daquela rua alguns se mudaram, outros começaram a trabalhar, outros foram pra faculdade. Alguns não estão mais entre nós, infelizmente - coisa do destino. Mas aquela rua sempre vai ser "A Rua" nas nossas lembranças, alegre, viva, intensa como nunca algo foi em nossa vida, como se só a infância fosse capaz de promover esses momentos, e realmente é, pois quando criança a felicidade não é responsabilidade nossa, ela simplesmente acontece. E assim deveria ser a vida toda, mas - coisa do destino ou do ser humano - a felicidade não é tão simples assim...

O autor é pederneirense e estudante de Jornalismo pela Unesp Bauru.

Ler matéria completa