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'Vende-se' imóvel

por Patrícia Schubert

01/07/2021 - 05h00

A placa "Vende-se" posta na grade que envolve o prédio me causou tristeza. Por décadas, o imóvel era minuciosamente cuidado pelo zelador. Logo cedo, chegava de bicicleta para o trabalho, que deixava no final da tarde. Prestativo e educado, fez amizade com a vizinhança. Ele fazia parte de nossas vidas.

Não se restringia às atividades de seu ofício. Cuidava também da calçada, varrendo as folhas que se depositavam no entorno.

Aparava as plantas do jardim do imóvel, que mantinha íntegro com um amor evidente. Era empregado, mas parecia ter amor de proprietário. Preocupava-se com o prédio, com os moradores e com os amigos vizinhos.

Não havia um dia que eu chegasse a casa defronte ao seu local de trabalho e que ele não me cumprimentava. Muitas vezes, vinha uma conversa. Tantos anos de convivência... Décadas de amor ao trabalho e desempenho impecável de suas atividades. Raro!

Um dia, parei o carro e ele atravessou a rua. Aparentava preocupação. Era também imensa decepção. No dia anterior, havia recebido ligação telefônica dos proprietário do imóvel, dispensando-o do ofício. Um impacto também para mim. Seu trabalho era sua vida. Tinha família, mas ali era quase tudo para ele.

Demitido inesperadamente, nunca mais ali apareceu. O predinho ficou sem sentido. E ele perdeu o sentido da vida. Dias depois, vários problemas de saúde o acometeram. Inválido, ficou acamado por meses, até que fez a passagem. Nossa imensa gratidão ao zelador do predinho, que demonstrava evidente amor ao trabalho e as pessoas que, em razão do ofício, encetou amizade.

O ato demissionário laboral é algo impactante. Para alguns, é o fim não só do trabalho, mas a razão de viver. Há o que não se vende. O amor ao trabalho probo e exemplarmente desempenhado, por exemplo.

A autora é colaboradora de Opinião.

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