Bauru

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Vozes da lembrança

por Alexandre Benegas

11/07/2021 - 05h00

Vinte minutos depois, uma chuva grossa tamborila o telhado das casas. Uma procissão de gotas desce pelo silêncio da janela. Faz frio, um lado do varal não se molha. Seis da manhã. Nesse momento, muitos acordam, outros, apesar do despertador, dormem a preguiça morna dos dez minutinhos. Impensável dar carona ao atraso. No café costumeiro, ele relembra os afazeres do trabalho, o que o expediente lhe exige: contratos, conferências, reuniões, e-mails, relatórios, compromissos inadiáveis de alguém em cuja confiança o patrão poderia depositar. Comprometido com a empresa, ele reconhecia, por completo, que o mais difícil na convivência humana não seria matar um leão por dia, mas sim se desviar das antas. Pela sua capacidade de guardar dados, informações, rendeu-lhe o apelido de "Memorioso".

No supermercado sabia listar para a mulher o que por hora faltava ao lar; quilo do presunto, preço da rúcula, dias de sacolão - sem abobrinha - sabia de tudo. Os parentes e os amigos surpreendiam-se com a afinidade pelo qual ele tinha com os detalhes; até datas e valores dos seguros dos carros e da casa faziam-no antecipar o contato com o corretor. Mensalidades escolares? Nota dez. Curso de inglês? Yes. Academia? Musculatura para honrar os vencimentos. Datas de inscrição, taxas de vestibulares, lá estava ele na busca pela alternativa certa da informação.

Num dia como outro qualquer, beija os filhos e a mulher antes de retornar ao trabalho e no caminho ele - com muita vergonha - após virar à direita, cruzar à esquerda, descer pela avenida, subir pela travessa, entrar pela contramão esquece a rua; poxa, o lugar à que vai todos os dias! Numa sensação de tarefa desconhecida, recomeçou do princípio, uma vez, outra vez e - porcaria! - nada, suspirando sua insatisfação após menear a cabeça como gesto de reprovação; não fazia calor e suas mãos, seus braços e até sua testa - santa paciência - começaram a porejar um suor incômodo; viu-se no retrovisor em rugas.

Na véspera do feriado inexistia alegria maior do que o passeio com a família. Banho, gel alinhador e o bigode, cujo crescimento ele vigiava semanalmente, inauguravam um novo dia, um novo homem. No mesmo restaurante, jantam filé igual. À mesa, a esposa orgulhosamente compara o tamanho útil de seu culote pela idade que lhe veste; os filhos emudecidos chegaram e assim permanecem cada qual em seu Samsung. A luz oblíqua de um luminoso corta um triângulo de claridade em sua vista; nesse instante ele tenta chamar pelos filhos; sem chance. De repente, como um sopro inesperado, ele esquece o nome deles; causando-lhe um vazio incontornável e, nesse hiato esgarçado, o nome dos filhos sonegado penetra-lhe como um aviso ameaçador num ansioso sinal de uma escada inclinada.

Na quarta-feira, queria não poder contar, e não precisar contar talvez me isolasse desta história, como se a partir disso tivesse mudado de lado, passado para a outra margem; mas não, os exames em nada escondiam para a família. Com Alzheimer e com as memórias esquecidas, ele se lembrou de pedir à esposa em casamento pela segunda vez. Na igreja, ela também emocionada disse sim, e por um tempo conversaram juntos sobre o que não cabia em palavras, mas nos intervalos delas, sobre o que a vida dispersa e sobressalta aos corações.

O autor é professor de Língua Portuguesa.

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