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Democracia em risco

por Adilson Roberto Gonçalves

18/07/2021 - 05h00

A democracia é como o amor: existe e sobrevive apenas quando ininterruptamente praticado. Necessita, portanto, de atenção contínua, sendo de existência indispensável, mas frágil. A poética política precisa ser aprofundada em ações e discussões.

Há uma sensação de que as instituições estão funcionando no país e, portanto, a democracia poderia até estar em alerta, mas não correndo risco. Discordo, sem querer ser alarmista, pois alguns indicativos levam à conclusão de que a democracia está em risco sim. Sumarizo em dois grandes tristes tópicos, parodiando o filósofo:

1) a repetição da história, sendo patente a comparação do momento atual com a ascensão do fascismo e do nazismo na Europa - líder populista de direita, discurso contra minorias, teorias de conspirações sem fundamento, vitimismo de uma classe já dominante, contestação de resultados eleitorais que ainda nem aconteceram, desrespeito aos poderes constituídos etc;

2) não solução de mazelas do passado, sendo as duas principais a) a manutenção de uma escravatura pós-Lei Áurea, com exclusão de negros e seus descendentes dos processos econômicos e marginalização imediata de sua atividade e participação social; e b) a não punição dos agentes de Estado que atuaram contra a população na ditadura militar após 1964. Especialmente essa última leva à participação indevida das Forças Armadas no atual governo, forte motivo de instabilidade democrática.

A solução não é simples por complicada a situação. Em artigo anterior neste espaço trouxe reflexões sobre o racismo ("Ainda as questões do racismo", 3/7) e, mesmo com alguma provocação, não vi qualquer resposta ou contestação registrada. A sociedade precisa voltar às discussões interrompidas como parte do próprio cultivo e sobrevivência da democracia.

O autor é pesquisador da Unesp em Rio Claro

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