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Vontade banguela

por Alexandre Benegas

25/07/2021 - 05h03

Silenciar um beijo sabotado é disgrama a caminho, ainda mais pra homem com 47 chuvas e lambadas pelas costas. Não sou homem de palavra gasta, não nasci pra ser aruá, carrego necessidades; desde menino capinava na gastura das horas. De jerimum, aipim a laranja-cravo, minha enxada e eu. Não sou homem de prosear na cachaça; do rastro que deixo é de casa pra roça. Assim, fico com a gota-serena quando minha preta me nega o que tenho por direito.

De uns tempos de moça-mulher ela bem usava um batom brilhoso, vermelho de bala lambida, olhos da negrura de anu e um sorriso animado de quermesse; beleza que espetava minha admiração. A gente se conheceu na feira da Quintino; manhã de sábado, tanto aguaceiro, mal dava pra ver o relógio da matriz tiquetaquear dez horas. Chuva, chuva que soava minha vó mexendo num saco de canjica. Um toldo amarelo nos recepcionava; nós dois de braços encostados - meu Deus - enxugávamos nosso silêncio que dilatado se contorcia na timidez do espaço. Do vento que tudo sopra, dava pra sentir a sacola ordinária de plástico rebolar suish suish ao redor do seu joelho fino.

Vida de terra batida é assim. Num dia mato coberto, noutro, cavalos de sela comendo milho na sombra, bezerro gordo escaramuçando na mangueira. Com respeito de homem com chapéu na mão conversei com o pai dela; noivar dava em pudim de tapioca; o casamento, em galinhada e bolo de macaxeira com coco e goiabada; para trás, ficaram as cabras, paus virgens de uma cerca inacabada.

Enfastiada do que o arado lhe dava: do nambu e tatu temperado com feijão, buscou no marido diferente morada; asfalto, avenidas, travessas, ruas, semáforos, carros, motos, buzinas, alarmes e placas tossiam o sonho entorpecido da cidade grande.

Conhecemos o mercado no quinto dia útil às seis da tarde terça-feira dum céu de sol abusado de suor; ela marchava com seu tamanco gordo de madeira; jantamos cuscuz num silêncio rouco. O calor da noite exigia de nós pouca roupa; bom pra juntar as coxas, mas ela - fia duma égua! - deitava minha decepção com moletom frouxo e meia.

Na quinta-feira, bem depois do aniversário da Madalena, eu, esperançoso como vela acesa no toco, me arrumei no banho e na barba; tinha que dar certo; comecei a ficar tenso, isso nunca me havia acontecido, ter de arrastar minha butina pra sandália dela mendigando minha vontade sem dó; só aliviado me sentiria melhor, mas não, ela prostrada na cama roncava com a luz acesa; só percebeu minha aproximação quando espirrou sua alergia pelo perfume que eu trazia no corpo.

No último capítulo da novela - era só o que me faltava - permitiu o sono dos cachorros em nossa cama; eu, reclamando aconchego, dormi com rabo entre as pernas no sofá da sala; direita, esquerda, inclinado, de bruço com fortes dores no corpo, acordei agitado no chão com a lambida de um deles. Nessa desgraceira, rumei para arruda e alecrim da benzedeira; depois creio Deus pai todo-poderoso criadô do céu e da terra em Jesus Cristo nosso sinhô busquei na missa rumo desta vida de perdição; tinha de resolver isso de uma vez; no particular da salinha da igreja eu e ela ouvíamos o padre falar disso, daquilo, tudinho, tu-di-nho. Azeda, ela espremia sua insatisfação declarando ao padre que quem não consegue comer carne, mal chega a roer osso; eu sorria desdentado; num silêncio consolador, o padre me disse "Deus o abençoe, meu fio."

O autor é professor de Língua Portuguesa.

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