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Quem é você?

por Paulo Cesar Razuk

05/09/2021 - 05h00

Antiga tradição conta que, tão logo saímos desse mundo, um anjo vem ao nosso encontro e pergunta: "quem é você?". Na verdade, ele não deseja nosso nome, mas, saber se descobrimos nossa verdadeira essência, ou quem realmente somos. Essa pergunta faz todo sentido, pois, a grande maioria das pessoas passa por esse mundo físico sem saber, realmente, quem é. Não é a carne, o braço ou os ossos que amam ou se enfurecem. Não é o sangue ou a saliva que sentem o medo ou a fé. Existe algo muito mais profundo que comanda os sentimentos: a nossa essência ou quem realmente somos. Nós esquecemos quem somos porque o corpo e a essência de nosso ser - a alma - têm necessidades diferentes e normalmente, vivemos somente para satisfazer o corpo. Não temos tempo para contemplar as necessidades da alma.

Isso acontece também porque nossa alma nem mesmo é parte do nosso corpo físico. Pense em um copo com água e perceba que, embora copo e água coexistam, a água não faz parte do copo e se ele cai e quebra, a água, absorvida pelo solo ou evaporada, não perde suas características. As pessoas morrem, o corpo se decompõe e volta a fazer parte da natureza de onde veio e a alma ou a energia que o movimentou, retorna a sua fonte.

Em nosso mundo físico as coisas simplesmente não desaparecem, mudam de forma. Uma árvore poderia ser cortada para a construção de uma mesa ou de um banco. Independentemente da maneira com que a forma se modifica, a madeira permanece madeira. Quando essa mesma madeira é queimada, ela se transforma outra vez, convertendo-se em calor. A árvore, a mesa, o banco e o calor são todos, em essência, diferentes formas da mesma substância. A princípio isto parece difícil de compreender já que somos extremamente dependentes de nossos instrumentos sensoriais para atravessar a vida. É mais fácil segurar uma mesa com nossas mãos do que agarrar a energia gerada pela combustão da madeira e, mesmo assim, o calor não é menos real do que a mesa.

Por isso, neste mundo que não possui Luz própria, estamos todos espiritualmente empobrecidos. Somos todos receptores vazios em busca de Luz e Ela nos é revelada ou não dependendo da maneira como reagimos diante das dificuldades. Quando algo negativo nos acontece não significa que estamos sendo punidos, não existem vítimas nesse mundo. É através dos desafios superados que aperfeiçoamos nossa alma e nos tornamos quem devemos ser.

Não podemos considerar os problemas como sendo um castigo de Deus. O Eterno jamais nos castiga. O que de fato existe, é o redirecionamento da alma rumo à perfeição. O erro é um método de aprendizagem e quanto mais doer, mais será lembrado. O tamanho da dor é sempre proporcional ao problema causado. Assim, se achamos que sofremos em demasia é porque causamos estragos em demasia. Se julgarmos que não merecemos é porque causamos desgraças a quem não merecia. Quanto mais difícil a vida, maior o resgate a amortizar.

Se alguém precisa de uma correção por meio da dor, sempre haverá alguém disposto a fazê-lo. A trama do mundo os coloca unidos para que ambos sejam beneficiados. A vingança e a ofensa são necessárias para que alguém desenvolva o perdão. Assim, se as coisas não vão bem, devemos procurar as causas pelos caminhos já percorridos porque nada é injusto. O que chamamos de injustiça divina é um remédio necessário que faz arder o coração e a consciência daqueles que precisam ser corrigidos.

Não podemos fugir das consequências de atos passados, mas, podemos mudar os resultados pelo que fazemos agora. O único meio de mudar as coisas é mudar a si próprio: buscar a espiritualidade, praticar os valores e as virtudes típicas de um ser humano de verdade.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica - Faculdade de Engenharia da Unesp – Câmpus de Bauru.

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