Bauru

Articulistas

Liberdade suicida

por Paulo Neves

26/09/2021 - 05h00

Mesmo sabendo que aos 73 anos nunca mais vou lecionar, ainda mais sendo professor de História, principalmente do Brasil. Mesmo sabendo que ao passar dos 70 anos não vou encontrar mais emprego, mesmo sabendo que sou um idoso aposentado com o mínimo e já fora do prazo de validade, mas, apesar disso tudo continuo estudando, lendo, acompanhando debates, assistindo teatro e filmes, para não ficar louco nessa solidão tóxica. Tenho lido Brecht, Hobsbawm, Noam Chomsky, entre outros.

Me remeto a Brecht, que escreve: "Que vivo em tempos sombrios. A palavra inocente e tolice. Uma testa sem rugas indica insensibilidade. Aquele que ri, apenas não recebeu a notícia terrível...".

Pergunto: e que notícia é essa?

A notícia é que é preciso ser livre para usar armas. É preciso ser livre para transportar a criancinha fora da cadeirinha. É preciso ser livre para não mandar a criança para a escola e fazer a educação em casa, mesmo sabendo dos problemas futuros. É preciso ser livre para não tomar vacina, porque eu sou livre e vivo numa sociedade democrática. É preciso ser livre para não usar a máscara, porque não sou obrigado. É preciso ser livre para matar o negro. É preciso ser livre para matar o índio. É preciso ser livre para matar a mulher. É preciso ser livre para matar o trans. É preciso ser livre para cortar árvores...

O que estamos observando é que o conceito de liberdade da extrema direita fascista é ligado à destruição, a ideia de liberdade que se apresenta é porque eu sou livre, então eu posso destruir. Me parece que esse é o momento em que estamos vivendo..

Retorno a Brecht, que escreveu: "Vocês que emergiram do dilúvio em que afundamos. Pensem que queríamos preparar o chão para o amor, não pudemos nem mesmo ser amigos... mas quando chegar o momento do homem ser parceiro do homem, pensem em nós com simpatia".

Poderia terminar com Brecht, que ficaria mais palatável essa carta, mas, na real, o Brasil perdeu a sensibilidade do absurdo.

É isso aí!

O autor é professor de História, diretor de Teatro e colaborador de Opinião.

 

Ler matéria completa

×