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Eu não nasci de óculos

por Alexandre Benegas

03/10/2021 - 05h00

O primeiro foi seu pai, vigiava o bigode cujo crescimento desgrenhado insista em invadir o pescoço arrepiado de vermelho; o segundo, seu irmão, com vida de cereal e frutas, acompanhava - um, dois, três - a evolução do bíceps; o terceiro foi aquele que Teresa deu a mão; manicuro, esmaltava a satisfação indispensável de suas clientes com vermelho fúcsia. Assim enxerga o ser humano. Os olhos, vencidos pela sedução imagética, entregam-se ao apelo externo. Nas academias, faz-se esforço hercúleo pelas formas apolíneas. Geração do embrulho, as coisas valem pelo que as envolve. Se tudo é pela embalagem, como ficaria o conteúdo?

Na sala de aula, o adolescente de 18 anos masca dúvidas sobre o vestibular. De pés com Nike, mãos com Motorola e cabeça na corpo da vizinha de 23 anos, ele malha tardes na academia do bairro; quer impressioná-la. Para isso, pavoneia tatuagens e um penteado revoltado no gel. Seus braços, inquietos de recepcionar esperas, serpenteiam-se em gestos compridos. Retido pela segunda vez na primeira série do médio, desconhece Machado de Assis e considera leitura um saco, mas o melhor de tudo é que ele malha; considera um absurdo pagar um curso de idiomas, mas - sabe como é - gasta mensalmente, em som, acessórios no Fiat Elba 86, duas portas, da família; acha também um porre o valor de um livro, mas - já disse, sabe como é - gasta sua mesada com bonés e figurinhas do brasileirão; agora, malhando bastante, só usa óculos escuros, é claro.

Herbert Vianna tem razão: "Eu não nasci de óculos, eu não era assim não." Talvez tudo isso explique nossas inclinações, nossa busca cosmética. Nesse autorretrato não falado, cada qual desenha suas afeições. Pudera! Ter e assumir estilo é um resultado de inúmeras decisões. Redescobri isso ao visitar uma ótica. Eleger uma armação diz muito sobre você. Comecei pelas prateadas com fio de náilon, que, discretas, combinavam com meus cabelos brancos. Cara de engenheiro, dava para imaginar eu explicando a planta da obra; só que minhas obras são outras. Engolido pela curiosidade, meti meu nariz nas de madeira; a ideia de sustentabilidade, reflorestamento; com muita honra, cara de membro de ong cidadania orgânica, cara de pau a minha! Flexível como uma haste, disse não. Gostei da arredondada, estilo John Lennon, assim poderia deixar meus cabelos crescerem com os meus sonhos de idade, mas não, muito musical do que ouço e não toco.

Do acetato preto, migrei para a armação tartaruga, proposta e tanto! Óculos dessa armação é pra quem, no mínimo, já releu, com deleite e mansuetude, os volumes Guerra e Paz, de Liev Tolstói e a coleção da Agatha Christie. Depois de tanto experimentar, e agora? Qual escolher? Duas propostas me visitavam. A conservadora, simples e discreta como o pingado com açúcar; era mais cômodo e confortável manter minha vista no anonimato, que desdissesse algo sobre mim. Por outro lado, buscava acrescentar nozes e chocolate ao meu café, ao meu visual. Por que não? Por mais que eu buscasse me afirmar na cor, nas curvas e no material de uma armação, meus pais, desde cedo, me ensinaram a diferença de ser lâmpada e holofote. Sei que de tanto ver e ser visto pelo espelho, o café com nozes e chocolate venceu o pingado com açúcar e acabei ficando com a paciência elegante da tartaruga.

Por tudo isso, quando meus alunos ouvirem "quem é seu professor de Literatura?", poderão responder, "aquele que, por princípios ou por estética, não quer dizer nada sobre tudo com seus óculos."

O autor é professor, autor de artigos didáticos, ficcionais e coautor de antologias da Língua Portuguesa. 

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