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O Rio Batalha e a crise hídrica em Bauru

por José Amauri de Oliveira

08/10/2021 - 05h00

A estiagem que atingiu diversas regiões do país provocou uma crise no abastecimento público de água em muitas cidades, dentre as quais Bauru. A redução da oferta de água é generalizada, no entanto, no caso de Bauru apresenta uma particularidade, pois o problema tem estreita relação com o Rio Batalha, que é responsável por cerca de 40% da água fornecida à população da cidade.

A falta de água em Bauru vem acontecendo há anos e se agravando cada vez mais devido à falta de chuvas e o rebaixamento do nível do Rio Batalha. Nas matérias jornalísticas, nas discussões políticas e até nas conversas informais sobre a crise, sempre há referência ao rio nos aspectos relativos ao nível da água, ou seja, às condições para fornecimento de água para a população.

Raramente tratam das condições ambientais do rio, da qualidade das margens, preservação das matas ciliares e de aspectos referentes à erosão e à poluição. Percebe-se, portanto, um descuido irresponsável quanto à preservação desse rio tão importante para os municípios que corta, especialmente o de Bauru.

O Batalha nasce na Serra da Jacutinga, município de Agudos, segue fazendo divisa entre Bauru e Piratininga, passa por Avaí onde se desvia para o norte e atravessa Reginópolis indo desaguar no rio Tietê, próximo a Uru, num trajeto de 167 quilômetros. No entanto, é no trecho que divisa os municípios de Bauru e Piratininga, que o rio vem sofrendo, de maneira mais intensa, interferências nocivas.

Há algumas décadas o Batalha era um curso d´água relativamente volumoso, com águas límpidas e margens cobertas por mata ciliar que formavam sombras generosas em muitos pontos. O rio era piscoso com água e verde em abundância. Porém hoje a situação é outra pois o rio está definhando.

A mata ciliar foi destruída, as águas estão poluídas por agrotóxicos e outros produtos, o mau uso do solo provocou erosões e assoreamento do seu leito. Os córregos que nele desaguam estão minguando assoreados e poluídos e as nascentes estão sumindo nas propriedades que margeiam o rio.

Por outro lado, houve um aumento considerável no consumo de água no município devido ao crescimento urbano da cidade. Desde a década de 80 ouço dizer que 40% do abastecimento público de água em Bauru provém do Batalha. O município que contava com 186.664 habitantes em 1980. (Censo Demográfico, IBGE) possui atualmente uma população estimada em 381.706 pessoas.

Bauru cresceu e o Rio Batalha continua fornecendo água para 40% de sua população. Porém não mais para pouco mais de 70 mil habitantes (1980) mas para mais de 150 mil.

O resultado é o racionamento de água e o rodízio no abastecimento para parcela da população de Bauru. Como agravante, notícia veiculada no Jornal da Cidade (27-08-21) revela que estudos demonstram que a perfuração de novos poços na região centro-oeste da cidade, que poderiam aliviar o sistema Batalha-ETA, são inviáveis devido à pequena vazão do Aquífero Guarani naquela área.

Nesse momento em que se verifica um decréscimo acentuado de oferta de água e um aumento significativo da demanda, as ações governamentais nos seus vários níveis se limitam a paliativos, com forte redução dos investimentos públicos nessa área.

Planos mais amplos não saíram do papel. As entidades não-governamentais que atuam em defesa do meio ambiente encontram-se enfraquecidas e desmobilizadas, a militância ambiental perdeu força, e salvo a atuação de alguns poucos abnegados, a situação do Rio Batalha é de total abandono.

Tardiamente, é preciso agir para buscar soluções no sentido de garantir oferta de água com qualidade para a população, mas também preservar o velho Batalha, ou seja, impedir a sua morte. Assim sendo, urge a necessidade de um plano de ação sério no sentido de evitar a morte do rio agonizante e, consequentemente, o agravamento, ainda maior, do problema de abastecimento de água em Bauru.

Um projeto amplo de salvação do rio que abarque ações referentes ao cumprimento da legislação ambiental das APPs, fiscalização rigorosa das captações indevidas e monitoramento das captações legais de água, revitalização de nascentes e córregos, recuperação das matas ciliares, combate à erosão, assoreamento e poluição dos cursos d'água.

É necessário ainda, a partir de critérios técnicos e legais, elaborar um programa de incentivos à produção de produção de água junto aos proprietários rurais e uma campanha educativa ampla em toda a região. As crises hídricas se apresentam cada vez mais graves.

A continuidade da atual omissão aponta para um futuro temerário.

O autor é professor aposentado do Departamento de Ciências Humanas da FAAC- Unesp, câmpus de Bauru.

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