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Eu vi a lua

por Maria da Glória De Rosa

09/10/2021 - 05h00

Eu vi a Lua, mas não estava sozinha, Cecilia Meireles me fazia companhia. Fui buscá-la porque sabia que ela me faria ver a Lua de maneira mais esplendorosa. E "vimos a Lua nascer, na tarde clara." Janelas e portas foram se abrindo de par em par para olhar a Lua majestosa. "Orvalhavam diamantes, as tranças aéreas das ondas" ajudavam na fulguração do ambiente, que já era impossivelmente belo. Alguma nuvem também, intrometida, nasceu, mas "ninguém lhe dava importância." Que coisa mais linda! A Lua "subia com seu diadema transparente, vagarosa, suportando tanta glória."

Mas, sabe aquela nuvenzinha marota, pequena que "corria veloz pelo céu"? Acredita que ela atrapalhou nossos propósitos? "Reuniu exércitos de lã parda, levantou por todos os lados o alvoroto da sombra." Será que vai me impedir de ver o que eu queria? Vai impedir à Cecilia, também? Cecilia e eu queríamos porque queríamos ver a Lua e eu pedi à poeta que me ajudasse. Ela tentou, mas "quando quisemos outra vez luar, ouvimos a chuva precipitar-se nas vidraças, e a floresta debater-se com o vento." Onde já se viu essa chuva aparecer inopinadamente, fustigando as vidraças e o vento também aparecer uivando e maltratando a floresta? Por que isso? Foi aquela nuvenzinha intrometida que apareceu correndo pelo céu e estragou nossa tarde-noite! Foi ela, eu sei. Despeitada, porque parecia "uma pena solta", porque se assemelhava mais a "uma flor desfolhada", não queria ser enjeitada pela imponência da Lua.

Marota! Não vê que estamos interessadas na Lua, não em você? Espere sua vez. Não seja desmancha-prazer. Provavelmente, chegará seu dia e você não precisará convocar esse exército opaco, pardacento, sem brilho. Não seja invejosa. Espere a vez. Por certo, chegará um dia.

Por isso fui pedir socorro à Cecilia. Porque tinha me disposto a ver a Lua ao lado dela. Sabia que ela me faria ver a Lua linda mais linda ainda do que era. É diferente ver a Lua ao lado de um poeta, nós que andamos tão carentes de beleza!

Que poderia a poeta fazer? Confabulamos e confabulamos até ela me acalmar. Fez-me aceitar que a Lua não apareceria mais aquele dia, apesar das minhas súplicas, tristeza e inconformismo! Mas, conselho de poeta é diferente, é penetrante, é sábio. Aquietei-me, no entanto, com as doces e sinceras palavras de Clarice, que fechou a tarde-noite dizendo apenas a mim para não guardar dores porque a Lua, embora não pudesse aparecer, não havia fugido. Ela me fez crer e aceitei o fecho: "Por detrás das nuvens, porém, sabíamos que durava, gloriosa e intacta a Lua."

Rodapé. Dedico esta crônica à minha irmã Maria (Lya De Rosa), Lua que clareou minha vida, durante tantos anos, e que um dia subiu na tarde clara. Mas, nuvem nenhuma tentará ofuscar um relacionamento tão lindo. Sua lembrança perdurará gloriosa e intacta.

Eu sei que a Lua estará sempre lá.

A autora é pedagoga, jornalista, advogada e professora doutora aposentada - Unesp

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