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Chiclete

por Roberto Magalhães

16/10/2021 - 05h00

Marcão queria sexo. Genoveva, amor. Melhor corrigir. Não era bem assim, ela queria cama também, mas, sabendo que o santo é feito de barro, não abriria o altar além da conta. Acabado o açúcar da boca, viraria chiclete cuspido. Perdera a conta dos telefonemas prometidos - e não cumpridos - depois de muitas noites bêbadas de prazer.

Fácil não era, mas precisava segurar as investidas do Marcão, touro perigoso, que a todo momento vinha salivando pra cima dela. Ele precisava entender, ela não era uma dessas, não queria transar só com o corpo, mas com a alma também. Queria amor e poesia. Mais ainda, ser companheira, saber da vida dele, e a dela com ele compartilhar. Era uma moça diferente? Sim. Fora dos padrões? Talvez. Era o que era, se ele a quisesse, seria assim.

Conversa fiada. Embaixo dessa enrolação toda, havia uma Genoveva esperta com único desejo: pôr a canga no pescoço do Marcão e levá-lo ao altar. O padre cuidaria do resto: fidelidade na doença e na pobreza e contrato testemunhado valendo até que a morte os separasse. Perdera tempo demais e possíveis maridos, chiclete mastigado não seria mais. Marcão acabou se convencendo de que Genoveva era a mulher ideal, dessas pra casar, pra ser mãe, pra deixar em casa sem risco de visitante indesejável. Na cabeça dele, havia dois tipos de mulher: a que se leva pra cama e a que se leva pro altar. De branco, com véu e grinalda, levou Genoveva para o santo sacramento.

Tudo corria normal na vidinha deles. Genoveva, porém, inquietou-se com novidade: boca amarga. Seria o fígado? Alguma infecção? A boca amargava e ela perdia o apetite na mesa e na cama. Agendou um gastro, fez endoscopia, exames, nada foi detectado. Não se preocupasse, disse o médico, sintomas assim aparecem e vão embora quando menos se espera.

Pura verdade. Foi só aparecer o Nicolino, a boca não amargou mais e a vontade de comer voltou salivando. Nicolino era o novo chefe do marido. Moreno alto, olhos verdes e mãos enormes. Não precisava de mais nada, mas a natureza, quando quer exagerar, perde os limites: além de lindo, voz maravilhosa e simpatia de comover. Marcão, pensando em promoção, convidou o chefe para almoçar. Foi um encontro muito agradável para ele e inesquecível para a Genoveva. Nicolino se disse encantado com o convite, fazia questão de retribuir. Não reparassem o espaço diminuto do apartamento, vivia sozinho, depois do divórcio recente. Os laços se estreitaram e os encontros se revezavam com muito vinho, papo descontraído e a Genoveva se decotando cada vez mais.

Num deles, o diabo pôs em prática o que havia arquitetado. Foi só o Marcão pedir licença para buscar um vinho, Nicolino, sem pedir licença, lascou um beijo na Genoveva. Ela se entregou inteira: de alma, de boca e de língua. Dali pra frente, vieram os encontros furtivos em motéis diferentes. Quanto mais o fogo subia com o Nicolino, mais ela com o marido esfriava. Marcão reclamava das desculpas com que ela fugia da cama e, quando ia, melhor seria que não tivesse ido.

A coisa ficou insuportável. Conversaram muito, choraram outro tanto, e, sem adjetivos de machucar, separaram-se. Justamente agora que o caminho estava livre, o fogoso Nicolino foi ficando frio, desinteressado. Cheio de desculpas e de problemas, ele pediu à Genoveva compreensão, precisava de um tempo. Homem, quando pede um tempo, quer a eternidade. Para ela, estava tudo muito claro: acabara o açúcar do chiclete. Fora mastigada e agora estava sendo cuspida.

Onde andaria o Marcão?

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

 

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