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Solidariedade selfiada

por Alexandre Benegas

20/10/2021 - 05h00

Bem perto da travessa de chão duro e bola batida tem um campinho de uma trave só; a rede, a molecada levou pra varal. Daí, quando um mano e outro dá bicudo marcando gol, tem que pegar a bola lá no matão. Tem gente que tem medo de ir; também molecada já viu de tudo: cobra, camisinha, seringa, vidro quebrado, fralda, absorvente, gente com gente... credo, tudo arregaçado. Aqui na vila cada um faz o que pode do jeito que dá; aqui não tem jeito; por isso, fica jeitoso ir pra lá, no outro lado da cidade, bem do centro pra cima, na parte alta.

Quem nasceu pra ser prego sabe a pancada do martelo. Já viu pé descalço saber português, ciências, geografia!? Conhece pé sem meia no país das chuteiras!? Consciência apita tempo todo como chaleira fervente; também, a fome chicoteia sem dó, cortando como lâmina qualquer sobra de desânimo que invade a fresta do barraco. Aqui, futuro é traçado no par ou ímpar. Nesse canto, a pobreza é longa como rua comprida de casa com porta sem janelas. Saneamento, água, asfalto, lazer, tudo violado em promessa de político; aqui, cidadania é nome de partido. Conhecidos aqui mesmo é um cara-não-sei-das-quantas que anda com três oitão fumando nas esquinas, a tia da limpeza, a mulher do jogo do bicho, o cheiro da alfazema das senhorinhas da igreja, o cheiro das vontades das moças virgens, do café torrado do bar da quadra 13, o da loção de cabeleireiro do salão do tio que veio de fora, e um que bem quieto esquecido como brasa apagada: o cachorro e seu menino.

No lado da cidade em que a palavra com terno e gravata mora há água limpa, asfalto de verdade, cinema, posto com bandeira, restaurante com luminoso, calçada e semáforo para pedir. No lado da cidade, onde tudo funciona, a vida é vivida em planos: plano de saúde particular, plano de vida por previdência privada, plano de estudos que só escola particular ensina. No outro lado da cidade, há também muros altos gritando privacidade, exclusividade. Alarmes, câmeras, cercas elétricas prometem-lhes segurança. Uniformes e coturnos nervosos garantem a paz macia, proibindo qualquer indesejável entrada sem permissão. Vidros blindados em ambientes refrigerados atestam o sossego burguês contra a fuligem e a mendicância irrequietas. Embora tudo isso concorra com a insignificância da pobreza, o cachorro e seu menino seguem todo o dia para o outro lado da cidade.

O cachorro e seu menino ficam próximo do toldo do restaurante. Ainda descalço, o menino cego ouvi a pressa passante. Sapatos afoitos inconformados com a queda da Bolsa, bocas nervosas despacham o descontentamento político em solitários perdigotos e chinelos preguiçosos bocejam o feriado prolongado. O cachorro deita o cansaço ao lado da bombeta. O animal acompanha as moedas que alguém, com tempo e sem prejuízo, possa dar. Quando isso acontece, o cão abana o rabo, lambendo de imediato o pé sujo do menino.

Um dia, uma senhora bem salto alto ficou sabendo que a dona do restaurante, satisfeita de gorda, deu de aniversário ao menino uma bala de hortelã. Onde já se viu, absurdo, que coisa mais sem sentido, era só o que faltava! Miserável! Sensibilizada com a causa, a tal da mulher chique, ime-di-a- ta-men-te, percebeu que algo deveria ser feito; impensável o menino ganhar uma única bala de presente, ainda mais de uma dona de restaurante! Estômago vazio pede mais que isso! No mesmo dia, a tal da madame ordenou o seu motorista a conduzi-la ao local.

Ela, tão logo reconhece o lugar, desce, caminha alguns metros, aproxima-se, agacha e, governada pela comiseração, entrega algo digno ao menino: um saco com balas de hortelã. Nisso, esquecida do atraso ao chá das cinco, ela se lembra de arrumar o penteado, afivelar um sorriso nos lábios, selfiando a caridade postiça nas redes sociais.

O autor é professor, autor de artigos didáticos, ficcionais e coautor de antologias da Língua Portuguesa.

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