Bauru

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A lagoa verdadeira que devemos encher

por José Xaides Sampaio Alves

24/11/2021 - 05h00

A discussão rasa a que estamos assistindo sobre enchimento, assoreamento e novas perfurações de poços para dar conta do abastecimento de água em Bauru é típica desse tempo onde só se preocupa com o uso dos bens naturais existentes, exploração no caso da água, e pouco se discute como garantir para as gerações futuras a sua produção.

Passaram-se três gestões de pseudo ambientalistas, quando se esperava ações efetivas de busca de sustentabilidade e conscientizações e conquistas de corações ao tema, mas o que se viu foi um fiasco nesse campo, endividamentos homéricos da máquina pública para não falar do caso policial da Cohab e um dito "destravamento" que na prática é exploração sem medidas, deixando "passar a boiada" da especulação sobre as áreas de recargas de nossos córregos urbanos.

Um fiasco ambiental.

E esperar agora deste governo atual, alinhado com a destruição nacional do meio ambiente, da Amazônia, do índio e do trabalhador, que essa discussão avance, é mesmo acreditar no avesso das coisas. Mas acredito nas coisas loucas e em milagres que só Deus pode fazer.

A verdadeira lagoa que devemos preservar e encher não é a lagoa de captação atual, ela é apenas um reservatório temporário de algumas horas como se demonstra.

A lagoa verdadeira é todo sistema hídrico de cabeceiras de morros, morros, matas, pastos, matas ciliares de minas e córregos que a cada chuva fossem capazes de absorver lentamente a maior parte da água que cai, encharcando o solo como uma esponja, com milhões de litros de águas e depois que fosse por longo período armazenada no lençol freático, soltando-a devagar e constantemente pelas minas, mantendo, mesmo nos períodos de secas a produção da água que mantém o reservatório de captação em nível compatível.

Tenho dito, é equívoco ambiental pensar que manter apenas as matas ciliares preservadas vá garantir água potável. Não é assim. Regiões rurais à montante e nas bacias de rios de abastecimentos devem infiltrar suas águas no solo.

Com execuções de barraginhas nas beiras das estradas, com aumento de matas nos topos de morros, com exigências de execuções de curvas de níveis no solo evitando também erosões, criando corredores biogênicos, restringindo certos tipo de culturas agrícolas, exigindo a recuperação das matas ciliares e fazendo restrições de urbanizações sobre áreas de recargas de córregos urbanos. "Estamos matando nossos córregos e o Rio Bauru".

Estas mesmas exigências são necessárias para preservar as águas subterrâneas e o Aquífero Guarani.

Portanto, a questão é mais embaixo do que apenas perfurar novos poços.

Esta visão apenas exploratória vai nos levar mais rápido a voltar a ser deserto, como foi noutras eras a capital da Terra Branca.

O autor é arquiteto e professor universitário.

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