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Dói quando acordo

por Alexandre Benegas

30/11/2021 - 05h00

Sempre à noite dizia pai. No escuro é mais fácil esconder a fome. Também quem era ele para nos ensinar que a maldita sorri piedade a quem nasceu pra viver em estado de urgência, de gente mesmo que acorda em chão de necessidade. No sol da tarde em queda, pai sentava o vício no bar perto da rodoviária; dava pra perceber, ao longe, ele mancar o chinelo cansado. Coitado, gostava de usar uma camisa, dessas de fotografia de político sorrindo - sorrindo de quê, de quem eu não sei. Cheio de cachaça por dentro, molhado na baba de cachaça por fora, pai, abraçado na garrafa vazia, gritava uma fala incompreensível na calçada. A calça guardava marcas de urina mofadas e de suor acumulado. Como se não bastasse, botava olhos compridos de perverso, desses que picam de faca barriga e pescoço, pra quem se curvasse em prosa sem ser de chapéu na mão com nossa única irmã. Se pai chegasse tarde em casa, pouco importava, desmaiava o sono miserável no sofá arruinado de velhice pra no dia seguinte desejar um bom-dia de voz sumida. Sua barba desgrenhada escondia cicatriz de briga, dessas com faca lambedeira, que tivera com o irmão de mãe. Caso feio, de emudecer bocas nervosas, de fechar porta e janela de casa tamanha vergonha. Pai xingava mãe de peste, mãe xingava pai de traste; eu nada xingava, já me bastava viver num palavrão de vida.

Um dia, pai me encarou com olhos de raiva gorda desta vida, chorou alto aos pinheiros; do emprego que perdera na colheita de cana. Vezes quantas pai com a enxada tinindo na terra vermelha num sol inclemente, espelhando nas costas nuas suor da lida; pai capinava, capinava, capinava numa fadiga agradecida de dever cumprido. Depois do almoço, entardecia na colheita do cajuzeiro sob os gritos do patrão. Nessa época, pai levava pra mim e para os meus irmãos caçulas restos de cana abandonadas no engenho que o tempo ainda deixava viver. Delícia, ficávamos sorvendo o caldo num misto de risos e cochichos como se o vento pudesse despachar nossa alegria. Com o bagaço, nossa imaginação construía uma estradinha e não menos uma oca, tudo à sombra da goiabeira. Salário de pai era pra colocar comida na mesa; nunca nos deu carrinho e boneca, brincávamos com a terra, o sol e a chuva; brinquedos que não quebravam; por isso eternizávamos com os pés e mãos os carrinhos e bonecas que se refugiavam em nossa imaginação.

O coração dele era um torrão de açúcar. Chorou mais ainda da filha que partiu momentos do parto. Menininha, cabelo preto de jabuticaba. Lembrou-se também disso, daquilo e da irmã envolvida na prostituição e jogo do bicho, que meu avô evitava falar. Pai e mãe levavam convivência de estranhos conhecidos dentro de casa. Há tempos o sexo deixara de deitar na cama; as falas: ruídos verbais. Não se olhavam, apenas se viam. Um casal ausente de verbos de ligação: ser, estar, permanecer. Com isso, cada qual percebeu a noção exata que ocupava no coração recíproco. Inquilinos de um mesmo teto que, sob a convivência amaríssima, se toleravam. Pois assim, tornaram-se. A distância de pai com mãe fazia-a sentir num permanente resguardo rigoroso de mulher parida. Distância de estranhos que se encontravam por inúmeras vezes, afastados como cúmplices de um crime; o crime do casamento. Viver assim era enredo diário pra reza, de tristeza que se demorava em dias.

Uma noite, pai saiu de casa pra nunca mais voltar. Pra dar o que comer pros meus irmãos, mãe começou a faxinar pra fora. Acordava às quatro da manhã pra chegar em tempo na casa da patroa. Eu, mais velho, com 14 anos, cuidava dos meus cinco irmãos. No único quarto, dormia acesa uma vela de sete dias; orações de mãe. A vela esclarecia pra minha tristeza antecipada nossa pobreza. Mãe nos dizia que Deus quis assim. Mãe retornava perto das onze da noite preocupada com o que sobrou do dia pra almoço pronto de amanhã. Tão logo ela chegava, eu dormia. Em meus sonhos, morava numa casa com quartos, tinha pai e mãe que se amavam e abençoavam o futuro meu e dos meus irmãos.

O autor é professor, autor de artigos didáticos e coautor de antologias de Língua Portuguesa.

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