Bauru

Articulistas

O que perdemos com a tecnologia

por Thiago Brandão

04/12/2021 - 05h00

Sim, este texto é para nostálgicos e para a geração X e Y. Pronto, entreguei a minha idade, mas justamente pela idade que estou hoje, 40 anos em 2021, é que reflito sobre o que a tecnologia nos levou embora. Se você já é nativo digital, provavelmente este texto não será interessante para você, a menos que esteja curioso em saber como era o mundo sem a internet pelo meu ponto de vista. No meu tempo (ô clichê barato), o ócio, as horas a fio olhando para o teto do quarto, a admiração dos carros e da estrada através da janela do carro durante uma viagem e, até mesmo, olhar os incontáveis insetos que pereciam à velocidade do para-brisa com a sua implacável força de um paredão cortando a estrada, eram passatempos que não poupávamos a nós mesmos. Culpa zero, na verdade.

E nessas mesmas viagens, os nossos pais não ficavam "conectados ao mundo", com os olhos vidrados e ansiosos pela próxima notificação. Os pais e nós, crianças, conectávamos a nós mesmos e às trivialidades de um jogo de monopólio, à divertida ação de garimpar filmes nas locadoras de fita VHS, a assistir à novela das oito (sim, nos anos 80 e 90 o nosso "zapear" se limitava à Rede Globo) e vibrar com sonoro "ééééééééé" do narrador Silvio Luiz, na TV Bandeirantes, ao narrar um gol do Viola ou do Evair.

Quando estávamos em férias escolares, a bicicleta, o skate, a bola, uns tampões no dedão do pé a menos e o desenho Caverna do Dragão eram as nossas diversões. Os nossos pais deixavam o trabalho no, t-r-a-b-a-l-h-o. Olha só, o trabalho não ficava no nosso bolso como é hoje e, sim, no escritório, a quilômetros de distância de casa. E tudo bem, o sistema funcionava e, bem, e as pendências não se acumulavam, em pilhas de notificações no WhatsApp, no e-mail, no Telegram ou no CRM não preenchido apenas 30 segundos após encerrar o expediente. O máximo que ficava pendente era um ou dois papéis sobre a mesa, umas três cartas e um bilhete com recado para segunda-feira. A tecnologia nos tirou a tranquilidade, a atenção ao momento presente, as relações pessoais e humanas com maior proximidade, a importância nas coisas simples e frugais. Hoje, até o fato de sermos nós mesmos, sem o medo da avaliação, tolhe a nossa naturalidade no comportamento. Antes, se tomássemos um porre numa festa, a vergonha ficava na festa e pronto. Hoje, o mesmo porre é transmitido ao vivo, acabando com a nossa dignidade.

Não sou contra a tecnologia, aliás, com 40 anos, vi a internet chegando às casas do Brasil em 1996, adorava o barulho de discagem da internet após a meia noite e não desgrudo do meu celular. Por sinal, o meu trabalho depende da tecnologia e da internet. Portanto, não é um manifesto contra a tecnologia e a internet, mas uma reflexão sobre como há 30, 40 anos, as relações eram muito mais próximas e verdadeiras e os momentos vividos com intensidade. Até mesmo se perder em uma cidade desconhecida não é mais motivo para conhecer alguém perguntando a direção correta do seu destino. O GPS, aliás, não permite nem nos perdermos mais.

O autor é jornalista, especialista em Comunicação e Marketing Digital.

Ler matéria completa

×