Bauru

Articulistas

Em terra de Procusto, quem tem medida é manequim

por Alexandre Benegas

09/01/2022 - 05h00

Personagem da mitologia grega, Procusto, gigante trabalhador de uma estalagem nas altas colinas de Ática, oferecia hospedagem aos viajantes. Sob os tetos hospitaleiros que convidavam ao descanso e ao conforto, se escondia uma curiosidade. Dono de uma cama ferro, convidava seus hóspedes a se deitarem. À noite, enquanto dormiam, ele aproveitava para amordaçar e amarrar suas vítimas. Se a pessoa fosse mais alta e seus pés, mãos ou cabeça não coubessem exatamente nas dimensões da cama, Procusto os cortava. No contrário, se a pessoa fosse menor, ele quebrava seus ossos para ajustar as medidas. Nenhum viajante se adaptava à cama, porque, secretamente, o homem grande possuía duas versões de tamanhos diferentes, e armava para que seu hóspede nunca coubesse no leito. Conviver com Procustos é desfio sob medida. Da intolerância por inaceitar a opinião alheia, alonga o que lhe convém, mutila o que excede de seu agrado.

Advogado, pai austero, vivia para a família. Seus dias assumiam a regularidade fiel de um carteiro. Tamanha dedicação pelos filhos, o fazia acordar cedinho, o silêncio da casa só se quebrava com o chinelo da esposa que colocava mamão, pão de cenoura junto à garrafa com leite que fumegava na mesa a primeira refeição do dia. Todos os filhos cresceram ali, na fartura do prato cheio com feijão, batata-doce e café na xícara de barro vermelho.

O pai sabia da fome dos filhos. Mais que a fome do estômago, a fome dos olhos pelo interesse material que a vida não lhes poderia dar. Ainda assim, eram felizes pessoas do campo recebendo favores de um sol que se oferecia na boa semeadura e colheita farta. Direcionar os filhos nas escolhas monumentava seu ego. A vontade dos filhos lhe pertencia. Até a mulher se recolhia nas inclinações do maridão. As viagens, a vida se repetindo nos domingos de missa e pizza, a escola ideal pros netos, muito palpite e olhos bisbilhoteiros invadindo o portão da privacidade.

O filho mais velho, o Júnior, cumpridor dos deveres, procurou fazer direito; indubitavelmente seguiu a carreira do provedor da casa; e segundo o pai, deveria se ombrear no matrimônio com alguém de área afim. Aliançou seu futuro com uma advogada. Causa ganha para o pai. O do meio, nova determinação paterna: mexer com terra, gado; afinal alguém teria de cuidar do que o velho pai fez no sítio. Formou-se, pois, em agronomia, casando-se com uma veterinária. De porteira fechada ficou a satisfação do paizão. A filha realizou um sonho antigo do pai: dentista; ele achava chique ter alguém de jaleco, todinha de branco na família. Não deu outra, conheceu um engenheiro químico, de uma multinacional de higiene e limpeza. Sorriso do pai, claro, ficou alvejado. O caçula - ah! - com receio de o filho virar gay, o pai também decidiu sobre seu futuro. Inscreveu-o numa escolinha de futebol. Virou craque, renomado e braçudo. Casou-se com árbitro, mas vive dando bola pro gandula.

Procurou a custo, a traição se deu numa cama sob medidas. Procusto.

O autor é professor, autor de artigos didáticos e coautor de antologias da Língua Portuguesa.

Ler matéria completa

×