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O que estamos fazendo do nosso tempo?

por Paulo Cesar Razuk

11/01/2022 - 05h00

A descoberta do homem, de que toda criatura viva nasce e morre, inclusive ele próprio, resultou em tensões e o levou a combinar a vida e a morte com o tempo. Uma combinação intrincada e intrigante, difícil de ser esclarecida. A vida é uma viagem no tempo e viajamos juntos. Nessa viagem precisamos andar equilibrados. Um homem que é unilateral, por maior que seja seu poder, qualquer que seja seu conhecimento, não poderá ir muito longe. É preciso que haja o equilíbrio entre a cabeça e o coração; equilíbrio entre o poder e a sabedoria; equilíbrio entre a atividade e o repouso. É o equilíbrio que permite ao homem suportar a tensão dessa jornada e que lhe permite seguir em frente ao facilitar seu caminhar.

No Oriente há um provérbio que diz: "Deus extraiu o mel de todas as flores e esse mel era a esperança". As flores são os valores, as virtudes e a sabedoria que devem nos atrair com o mel da esperança. Buscar essas flores no caminho, sentir o sabor do mel, é ter a esperança de que a vida continua além do tempo. Esperança é vida e sem esperança a vida termina independentemente do tempo vivido. Somos um grão na espiga da humanidade e como o grão possuímos o dinamismo da germinação e multiplicação. Quando lançado à terra, o grão se decompõe, na verdade, se transforma para fazer brotar nova planta. Ele morre para renascer. Como o grão somos a condensação perfeita de fontes fecundas, somos corpo e alma. Como o grão, que morre sem jamais desaparecer, portamos em nosso seio a eternidade. Está lá, no Livro do Pregador, em Eclesiastes, capítulo 3, versículo 11: "...Deus também pôs a eternidade no coração do homem...".

Como o grão, debaixo da terra e despojado de toda vaidade, vê sua imagem renascer, o homem também é testemunha da aliança entre a terra e o céu. A terra, com seus nutrientes, é a mãe, a fecundidade material e o céu, com a sua Luz, a fecundidade espiritual. No entanto, o grão não cresce se a terra não for trabalhada: máquinas, equipamentos, implementos preparam a terra, realizam o plantio, mas, apesar de toda a tecnologia, o homem não pode esquecer que sua provedora é a natureza. Por isso o grão nos mostra que o trabalho, a espiritualidade e a humildade são absolutamente necessários, sem o concurso dos três nada se constrói, nada cresce, não há renovação.

Então, nesse seu tempo por aqui encontre sua vocação, trabalhe, capacite-se, reconheça Deus como provedor. Apesar dos desafios não desista. Apesar das naturais limitações, a realização é só o que honra e justifica o descanso. Por fim, doe parte de sua obra aos seus semelhantes. Isso significa: tenha desprendimento, solidariedade e amor fraternal. A esse respeito, vale citar Frei Antônio das Chagas, que viveu no século XV: "Deus pede hoje estrita conta do meu temp. E eu vou, do meu tempo dar-Lhe conta. Mas, como dar, sem tempo, tanta conta. Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo? Para ter minha conta feita a tempo. O tempo me foi dado e não fiz conta. Não quis, tendo tempo, fazer conta. Hoje, quero fazer conta e não há tempo. Oh! Vós, que tendes tempo sem ter conta. Não gasteis vosso tempo em passatempo. Cuidai, enquanto é tempo de vossa conta. Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo. Quando o tempo chegar de prestar conta, chorarão, como eu, o não ter tempo." Então, o que estamos fazendo do nosso tempo?

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica- Faculda de de Engenharia da Unesp – câmpus de Bauru

 

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