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O tripé

por Gilberto Sidney Vieira

14/01/2022 - 05h00

Produzi um poema em homenagem póstuma a ela, que foi publicado na página 3 do Caderno JC Cultura de 19/6/2011. Ela era culta: falava alemão, inglês e francês. Corajosa, agaz. Mulher de espírito elevado, doce, feminina e formosa. 1938, Hamburgo, Alemanha. Ela (30 anos) trabalhava como secretária no Consulado brasileiro. Conheceu lá o médico (30 anos) João Guimarães Rosa, cônsul adjunto. Ele, com ela se encantou. Entre os 2 desquitados, amor sério e profundo começou. Os vistos de entrada no Brasil eram assinados pelo cônsul geral. Limitados inicialmente a 36. Mas Guimarães Rosa era amigo de Osvaldo Aranha, ministro das relações exteriores. A quantidade de vistos foi recrudescendo de 1938 a 1942. Ela usava um artifício. O cônsul assinava os passaportes de judeus alemães. Mas ela acrescentava palavras em espaços adrede deixados em branco por ela. Ela salvava heroicamente judeus condenados aos campos de concentração na Alemanha. Agiu por compaixão, sem retribuição financeira. Mas em 1942 Getúlio Vargas declarou guerra à Alemanha. Os 2 foram presos pela Gestapo. Osvaldo Aranha interveio. Quatro meses depois os 2 foram trocados por 2 diplomatas nazistas presos no Brasil, por atos de espionagem. Os dois retornaram livres à pátria. Como ambos eram desquitados, casaram-se no México.

Passou a assinar Aracy de Carvalho Guimarães Rosa. Ela recebeu no Museu do Holocausto (Israel), em 1982, uma placa de gratidão por ter salvado tantas vidas. Em fevereiro de 1947, Osvaldo Aranha foi nomeado chefe da delegação brasileira nas sessões da Assembleia Geral da ONU. Exerceu importante papel na criação do Estado de Israel. Aracy, Guimarães Rosa e Osvaldo Aranha desenvolveram um tripé na defesa do povo judeu contra a perseguição nazista.

O autor é colaborador de Opinião.

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