Bauru

Articulistas

Saímos cientificamente da Idade Média?

por Renato Ghilardi

15/01/2022 - 05h00

Apesar de haver muita contradição de se considerar a Idade Média como um período no qual sua totalidade estava nas trevas do conhecimento, temos que assumir que a ciência daquela época era bem peculiar. Afinal, cria-se em bruxas comungadas ao diabo e em alquimistas que misturavam orvalho, sal, mercúrio e enxofre para fabricar ouro. Sim, apesar de belas exceções em matérias descritivas como anatomia, zoologia e botânica, a ciência medieval, em sua essência, era anticientífica e negacionista. Apodero-me aqui de termos que nos últimos anos têm sido usados como identificadores de obscurantismo. Se você vociferar de palavras como "anticiência" ou "negacionismo" você tem, automaticamente, gerado um crachá de profundo conhecedor do método científico e de como ele deve ser usado.

Na luta contra a pseudociência existem vários frentes: a- a luta que fazemos para nos sentirmos bem (porque é como chutar cachorro morto) já que ninguém acredita, como àquela contra terraplanistas, antivacinas e aqueles que acreditam na terra oca; b- a luta não gloriosa contra pseudociências já absorvidas e aceitas totalmente pela sociedade, sendo praticamente impossível derrotá-las sem muito suor a astrologia e homeopatia e, c- a boa luta que é aquela travada por ideias pseudocientíficas que permeiam o meio acadêmico em menor escala (como design inteligente e a psicanálise) ou maior escala (como marxismo e o identitarismo da teoria de gêneros) e que são absorvidas pela sociedade de forma paulatina..

Essas categorias mostram como o ser humano parece ser, em seu âmago, um eterno negacionista uma vez que é muito fácil negar a realidade para escapar de uma verdade desconfortável. Assusta ver como órgãos que, em teoria, levam a ciência como base, tendem paradoxalmente a serem negacionistas. O Ministério da Saúde, por exemplo, desde 2006, vincula práticas anti-científicas ao SUS. Em 2006 foram a acupuntura, homeopatia, fitoterapia, antroposofia e termalismo. Em 2017 foram a arteterapia, ayurveda, biodança, dança circular, meditação, musicoterapia, naturoterapia, osteopatia, quiropraxia, reflexoterapia, reiki, shantala, terapia comunitária integrativa e ioga. Todas essas práticas foram consideradas sem fundamentação científica pelo Conselho Federal de Medicina em 2018. Apesar disso, em pleno janeiro de 2021, época dos movimentos contra a anticiência, o Conselho Federal de Biologia regulamenta a ação de biólogos a essas práticas. Claramente um movimento anticientífico mas que proporcionará reserva de mercado ao biólogo, ou seja: hipocrisia científica.

Entendam, não sou contra essas práticas. Acredito que o ser humano tem a liberdade que quiser para se tratar do jeito que quiser e também creio que o conforto espiritual que algumas delas trazem é real e necessário. O que não entendo é o escalafobético movimento que alguns "cientistas" têm em aceitar coisas que lhe convém em detrimento da Ciência. Nesse quesito ainda temos a idade média como espelho de conduta.

O autor é professor da Unesp.

Ler matéria completa

×