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Vírus no corpo são 'amigos' para sempre!

por Alberto Consolaro

29/04/2022 - 05h00

Bactérias, fungos e parasitas são muito grandes quando comparados aos vírus e preferem viver fora das células. Assim, as células de defesa que fazem a fagocitose, anticorpos e enzimas, têm maior facilidade de localizar e destruí-los. Já os vírus, são tão pequenos e frágeis que se protegem dentro das células, tornando-se inacessíveis para as células da fagocitose e os anticorpos, pois seus tamanhos não permitem entrar no ambiente intracelular. As defesas têm que pegar o vírus antes de entrar nas células.

Cada vírus atua em um tipo de célula pois tem uma senha ou chave proteica natural para entrar. Se o vírus entrar no corpo e não achar nenhuma célula com fechadura compatível, ele não afeta este tipo de ser vivo. Por isto que, certos vírus só atuam em um tipo de animal. Esta afinidade é chamada de tropismo celular. Têm-se trilhões de tipos virais, sendo muitos ainda restritos a florestas, geleiras, cavernas e animais. Além disto, os vírus sofrem mutações diárias pois proliferam aos "zilhões" em minutos e a chance de sair algum diferente é enorme.

Entrou? E agora? Dentro das células, os vírus tornam-se seus gestores genéticos e ditam seus destinos: 1- Multiplicação viral - Fazem as células trabalharem como verdadeiras fábricas de proteínas para formar novos vírus. Eles não proliferam e nem fazem sexo, multiplicam-se usando as células. A sua missão primária é reduplicar-se incessante e silenciosamente aos bilhões. A pessoa vira produtora e infectante de novos vírus, e na maioria dos, nem fica sabendo. Muitas doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, diabetes e outras tem causas desconhecidas e depois descobre-se que pode ser virais à medida que as pesquisas progridem. 2- Doença - Alguns tipos de vírus usam as células como escravas que ficam lesadas, machucadas e morrem, o que provoca um quadro clínico de sinais e sintomas caracterizando uma doença. Isto ocorre no herpes simples, zoster, sarampo, caxumba, meningites, gripes e muitas outras.

3- Neoplasias benignas e malignas - A incorporação do vírus no DNA modifica as células que podem assumir autonomia e gerar um clone livre e independente no corpo o que se chama de neoplasias benignas e malignas como o papiloma, alguns carcinomas, neoplasias hepáticas, certos linfomas, condilomas e outros. Estas modificações celulares podem ainda dar origem a doenças autoimunes.

4- Muitos vírus entram em nós, nem sabemos e, absolutamente, não fazem nada de diferentes. Ficam latentes e a qualquer momento podem ser estimulados a agir em uma das três formas anteriores. Essa quebra de latência pode ser décadas depois. Um exemplo é quando não se toma vacina e a criança desenvolve catapora, também chamada de varicela. Depois de curada, ela tem vida normal, mas os vírus ficam latentes nos nervos! Depois dos 50 anos, este vírus pode sair da latência e a doença terá uma nova forma da doença chamada de Zoster.

Vírus são imprevisíveis ao longo dos anos e nunca vale a pena se contatar e infectar-se por qualquer vírus e não sabemos o que farão com as células e órgãos. Muitas doenças autoimunes, neurodegenerativas, metabólicas e neoplásicas são de origem viral, mas ainda não sabemos! As drogas antivirais atuam quando os vírus já estão incorporados. O melhor é ficar distante deles se protegendo ou se vacinar contra eles. Podemos até saber como e quando entram, mas em geral, amam nossas células e ficam por lá indefinidamente. Fiquemos atentos!

O autor é professor titular da USP e colunista de Ciências do JC

 

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