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Juros em alta

por Reinaldo Cafeo

05/05/2022 - 05h00

Com a escalada da inflação, que aparentemente daria trégua no segundo trimestre de 2022, posto que os efeitos da pandemia começavam a dissipar, a política monetária tem sido utilizada à exaustão nas principais economias mundiais. Vale destacar que a "prorrogação" da alta de preços tem muito a ver com o conflito entre Rússia e Ucrânia, portanto, atingindo praticamente o mundo todo.

Entre as decisões de política monetária está a elevação da taxa de juros. Israel, Estados Unidos e agora o Brasil promoveram alta nos juros para conter a inflação. No caso brasileiro, este movimento começou lá atrás, quando o país praticava a taxa básica de juros mais baixa de sua história: 2% ao ano. A prioridade ali era evitar que a recessão fosse forte devido ao ambiente pandêmico. Surtiu efeito à medida que o tombo na economia brasileira foi menos da metade da projeção inicial.

Mas o quadro mudou. Com menos ofertantes no mercado, mantendo e ampliando a demanda em vários setores da economia, os preços se elevaram, a inflação se instalou fortemente. Ao longo deste período o Banco Central brasileiro promoveu altas sucessivas na taxa básica de juros, que de alguma maneira tem evitado que a inflação fuja ao controle. Nos Estados Unidos a demora para elevar os juros foi maior. Somente agora é que o Banco Central americano está reagindo, principalmente depois de observar a inflação bater a casa dos 8,5% ao ano, fato raro de acontecer naquele país.

Se de um lado os juros mais elevados seguram os preços, principalmente de bens "financiáveis", de outro lado retarda a retomada do crescimento econômico. Por exemplo, nos Estados Unidos, há quem aposte em recessão. Isso mesmo, recessão econômica. Já no Brasil é possível que não tenhamos recessão, e sim um crescimento pífio para este ano, abaixo de 1%. Neste nível de crescimento econômico a taxa de desemprego cai lentamente e a geração de emprego sobe também lentamente.

Neste período em que a inflação demora a ceder e o crescimento da economia não é realidade, o grosso da população passa a ter que sobreviver com renda baixa e corroída pela alta dos preços, portanto, perda de poder aquisitivo, e ainda com escassas oportunidades no mercado de trabalho. Caímos na histórica constatação do "coberto curto", escolher o "menos ruim", e neste caso, o consenso é que a prioridade é controlar a inflação, mesmo que o crescimento da economia seja prejudicado. O que não é possível aceitar que atinjamos a estagflação, combinando recessão, desemprego e inflação, aí não há como evitar que os mais pobres sejam ainda mais prejudicados.

Por fim, é certo que os juros controlam a inflação, mas os outros instrumentos de política econômica precisam ser utilizados a exaustão para que o prazo de validade destes juros altos seja o menor possível.

É isso que se esperar da equipe econômica.

O autor é economista, presidente da Acib. Âncora/comentarista do Cidade 360

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