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O dia em que o Ódio mandou uma carta ao Amor

por Vitor Oshiro

08/05/2022 - 05h00

"Olá, Amor, tudo bem? Espero que não! Certamente, você se lembra de mim. Sou o Ódio, aquele seu irmão bastardo. Eu, na verdade, nem queria falar com você, mas a minha melhor amiga, a Vingança, me convenceu a te mandar esta epístola. O principal motivo de estar te escrevendo é que queria que soubesse que consegui vencer na vida.

Isso mesmo, Amor. Eu venci! Sei que você, vez ou outra, tem pequenas vitórias aqui e ali, mas, na maioria dos dias, sou eu quem dá as cartas, sou em quem reina.

Por muito tempo, as pessoas tinham vergonha de dizer que gostavam de mim. Hoje, não! Tudo mudou. As pessoas me amam. As pessoas amam se odiar.

Sei que você deve estar lendo isso e, com aquele seu otimismo insuportável, discordando de tudo o que eu digo. Mas, fatos são fatos, meu caro irmão. Basta dar uma olhadinha aí nas suas redes sociais. Elas são uma verdadeira ode ao Ódio.

Por lá, as pessoas atacam umas às outras sem qualquer pudor ou vergonha. Falam mesmo! Às vezes, nem sabem o que está acontecendo, mas, protegidas nessa 'armadura' que é a Internet, se sentem seguras para julgar, xingar, atacar e odiar com toda a força. Brigam com conhecidos e desconhecidos. Não importa! Até criaram um nome em inglês para os integrantes do meu fã clube nas redes: "Hater". Chique demais, né?

Ninguém escapa, meu irmão. Hoje, as pessoas não se preocupam em esconder que odeiam, inclusive, essas chamadas minorias. Eu sei que pode ser crime, mas eles dizem que é "liberdade de expressão" e que os ofendidos estão com "mimimi". Quem sou eu para discordar, né?

E, quando digo que ninguém escapa, não estou só falando de seres humanos. Até os animais têm sentido os efeitos da minha vitória. Você viu o que aconteceu lá em Bauru na última quinta-feira? Deram uma paulada na cabeça de um cachorro, que foi batizado de Valente, e o enterraram vivo. Pois é! Vou soletrar: enterraram ele V-I-V-O! Você ainda duvida de que eu venci?

É isso, meu caro irmão. Sigo aqui comemorando minhas conquistas diárias e torcendo para que as pessoas não se deem conta do que estão fazendo umas com as outras. Que elas te deixem cada vez mais de lado, Amor. Tomara que elas não me decepcionem. Eu odiaria ter que odiá-las.

Um grande abraço. Com raiva.

Do seu irmão, Ódio."

O autor (da crônica e não da carta) é editor do JC, jornalista da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia.

 

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